Verdes cristalinos |
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São verdes e ingénuos cristais meus
fogachos literários. |
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| Daqui houve meu nome | A sua bênção, meu pai | O Cabo Freitas | Poetastro me confesso |
| O Largo da minha aldeia |
AINDA DAQUI VEJO O MUNDO
Por largo tempo alargo os olhos por esse largo
Eiras e milhos, panos estendidos, montes de bosta
Gaiteiro e grilos, cigarras, ralos comigo trago
Ouço-os à sombra da oliveira à minha porta
Regula o ritmo a sucessão dos meses quatro
Dia de feira, burros e bois, chinfrim de porcos
Por um tostão num púcaro de água a sede mato
Dos corpos vivos que na capela rezam por mortos
E à barra jogo as emoções de tardes quentes
E em cada estaca o medo furo de invernos frios
Ó companheiro, traz a sacola, volta ao que sentes
Alaga os regos, deixa corrê-los em largos rios
Salta no adro, roda na escola piões dormentes
Regressa a ti, criança velha, com novos brios
| O João e a Piedade |
João era o filho mais novo do Zé Tendeiro e da Ti Ana. Tinha pouco mais de oito anos quando a mãe lhe confiou a guarda do rebanho de ovelhas e cabras.
Tinha cinco irmãos. Mal conhecera a Maria e a Teresa, as duas mais velhas, casadas no Brasil. Uma outra não resistira à pneumónica. O Zé e o Esquim, mais próximos, mas espigados, tentavam ofícios na vila para arrancar os tostões, poucos mas certos, que cobrissem a má administração dos bens que o pai adquiria e lapidava entre uma estadia no Brasil e as dívidas para nova viagem, sempre a sonhar com o regresso da riqueza adiada.
João levantava-se cedo. Desfazia a broa numa grande xícara, cobria-a de café, e enquanto vigiava o líquido para que não corressem também as borras sobre as migas, antecipava os movimentos que das papilas ao estômago introduziam o prazer cálido das premissas matinais. Que regalo!
Pegava maquinalmente na bolsa de retalhos, prendi-a no cinto, indiferente à certeza de que dentro dela ia a mesma penúria da véspera: um naco de broa, meia dúzia de azeitonas e um embrulho de papel pardo manchado de azeite, restos da fritura de um ovo, às vezes dois, quando as galinhas estavam de maré.
Não se queixava. Pelo contrário, era sempre com uma assobiadela alegre que ele iniciava as albas e despertava a vizinhança, animais e pessoas. Toca a levantar, que o João da Ti Ana já ali vai com as ovelhas.
Mas João não sabia que era o despertador do lugar. Perante a cândida indiferença com que acolhia os elogios de vizinhos, a aldeia acomodou-se à alegria ritmada do cachopo, sem se aperceber da paixão secreta que fizera relegar, num garoto de oito anos, a partilha do recreio com os companheiros de sua idade.
João não gostava de cães. Também os cães não morriam de amores por ele. Um dia, isolado num caminho, a meio de dois povoados próximos, viu um cão de frente, voltou-se para o evitar e logo lhe apareceu outro por trás. Entre ambos, fez como os gatos: trepou pela primeira oliveira que encontrou a jeito. Os cães tomaram-no por gato. Travaram às quatro patas com o focinho quase a abocanhar o fundilho dos calções e estancaram a ladrar, apoiados nas patas traseiras, rabos nervosos a varrer o chão, fuças espetadas na direcção da presa, que se aninhara no mais alto dos ramos capaz de lhe suportar o peso.
Quem o livrou da situação foi uma amiga da mãe, mulher respeitada por gente e animais. Ao mando dela, os cães afastaram-se, rabo entre as pernas e olhar murcho. O João voltou ao solo no ápice de um escorrega, desde o alto dos braços até aos pés, em chão batido, onde, ainda preso pelos sovacos, respondeu à interrogação da protectora:
- Diz-me lá, João, como é possível um pastor ter medo de cães. Já estou a ver que dominas o rebanho ao cacete e à pedrada.
- Não!... Nem cão, nem pau, nem pedra. É cá um segredo meu.
Como era dos primeiros a acordar a aldeia, de manhã ninguém assistia ao diálogo entre João e a Bonita, uma loira malhada de cinzas e pretos, em breve cabra feita, mas de João, há muito, tão só, a sua cabritinha. Entre ambos gerou-se um entendimento singular ágeno: ele transmitiu-lhe o significado de modelações de gestos e de timbres, de assobios, falas e cantigas; ela a ele o desenho melódico de vários mé...és e a relevância de certas posturas no interior do rebanho que se ajustava sem protestos à mediação que a Bonita operava entre as ordens do pastor e a obediência gregária do ajuntamento.
Por isso, ao lusco-fusco, sobretudo nos dias em que o rebanho, vindo dos brejos teria de bordejar o largo da feira, ao longo do caminho que o levava ao repouso dos currais, havia quem esquecesse as tarefas do momento e viesse à rua, à janela ou à soleira da taberna para admirar o movimento ordenado do triângulo de carnígeros e caprinos, em cujo vértice dianteiro, a Bonita apontava ao restante corpo do trilátero o trilho mais propício da marcha colectiva.
João, atrás, confiava na Bonita; a Bonita, à frente, orientava o pavilhão das orelhas para captar as ordens discretas de João.
Quem procurava não perder este espectáculo era a Piedadezita da Elvira. Na aldeia, as crianças, tratadas na primeira pessoa ou no vocativo, têm nome. Mas no discurso indirecto são identificadas e determinadas pelo patrónimo ou pelo nome matronício. E não é por acaso que se é filho de homem ou de mulher. É natural e vulgar ser filho de homem; mas ser filho de mulher é uma excepção.
A Elvira chegara à aldeia trazida pelos Cunhas. O senhor Cunha era um respeitado funcionário do Tribunal de Coimbra, casado e sem filhos, que construíra de raiz casa de pedra e cal e aproveitara o terreno à volta para batatas, hortaliças, frutas e até três oliveiras que justificavam pote de azeitonas, cântaro de azeite, panais e varas, tudo arrumado na loja térrea, arremedo de casa das alfaias, como era também uma ficção de sobrado, a cozinha e três quartos, sem faltar a varanda, alçada sobre estacas grossas de madeira, de onde se vigiava, nas traseiras, o fingido engenho, com o logradouro do forno, a capoeira de meia dúzia de galinhas e coelhos, o chiqueiro de um só porco, que nem era de matança, mas de investimento, avaliado na feira mensal de gado da aldeia.
Casa e quintal isolados sem necessidade de partilhar serventia com outros, mais umas terras de meia arca de milho, e o ordenado certo da taleiga pública faziam jus ao tratamento de Senhor Cunha.
O senhor Cunha não tinha filhos, nem se lhe conheciam outros herdeiros. Quando um dia apareceu na aldeia com uma menina já espigada, a Elvira, os vizinhos julgaram tratar-se de qualquer moçoila para os recados, uma criadita que se acostumasse aos trabalhos caseiros e aliviasse a mulher do senhor Cunha, de saúde débil, das canseiras domésticas e dos cuidados dos quintais.
Mas não. A Elvira era tratada como filha: aprendeu costura, bordava coisas lindas como as princesas, desenvolveram-se nela qualidades de sensatez e recato.
Soube-se que a tinham ido buscar à Roda. A aldeia envolvera a nobreza do gesto na discrição colectiva e esquecera o infortúnio das origens da menina, acabando por consagrar o respeito que ela ia impondo, à medida que se transformava em mulher.
A Elvira dos Cunhas, assim a baptizara a aldeia, cedo entrou na idade adulta como protectora dos seus tutores. Ganhou na costura boas moedas de ouro e prata, pelo menos as suficientes para tomar posse da casa onde vivia, quando ocorreu a morte do último dos usufrutuários da propriedade. Casou com o Manuel Camarão numa viagem de torna quando ainda sobravam patacas e ilusões da primeira aventura brasileira do noivo.
Nasceram três filhos, espaçados entre si pelos anos de ausência em parte incerta no Brasil. Os dois primeiros eram Pinchas, alcunha da família do pai, o Manel Camarão, mas a aldeia baptizou a mais nova de Piedade, a filha da Elvira.
A aldeia lá tinha as suas razões: a Piedade da Ti Elvira com cinco, seis anos garantia junto dos vizinhos o mérito das virtudes da mãe.
_ Ó mãe, tenho tudo arrumado como vocemecê me mandou. Posso ir agora à loja da Ti Mabília fazer as compras?
_ Podes
A Piedadezita da Ti Elvira, como carinhosamente lhe chamavam, tinha um relógio no coração que ritmava este pequeno diálogo diário com a mãe, de forma a fazer coincidir a ida às compras com a passagem do rebanho do João Tendeiro, de regresso ao curral. Era também com o coração que ela ajustava sons, espaços e distâncias: os primeiros acordes da sinfonia de guizos e chocalhos indicavam que o rebanho dobrara a curva do eucalipto grande; ela iniciava a travessia do largo em direcção à loja e a meio deixava-se envolver na doce perturbação interior dos balidos da Bonita que avisavam o João da sua presença; mais meio largo e era a mancha de som, cor e ordem do rebanho e o foco dos seus olhos atentos ao encurtar das distâncias que aproximavam do seu o sorriso do zagal; depois o prazer com que arrumava num íntimo tesouro secreto a convicção de que haveria de ser seu o guia do rebanho que, entretanto, curvara já, mais além, em direcção aos Pocinhos, depois de roçar os seus vestidos.
_ Demoraste!
_ Esperei que o rebanho passasse…
_ Sempre a mesma desculpa. Parece que o rebanho leva cada vez mais tempo a passar, mas não me consta que o gado tenha aumentado.
_ Já sabe como é, o João põe uma cabrita à frente que marca o passo do ajuntamento conforme ele assobia.
_ Então quando vais às compras o assobio dele põe a cabra a passo de caracol.
A Piedadezita ouviu o rubor das palavras incendiar-lhe as faces, acomodou a insinuação ao sorriso perplexo dos seus sonhos e amorteceu o remoque inesperado da mãe na esperança de continuar a ressoar tão só na sua intimidade a significação última das variações melódicas e rítmicas do rebanho do seu pastor.
A Elvira costureira projectava na sua filha de oito anos o modelo de mulher que ela própria representava: a casa é o espelho de uma mulher. A roupa quer-se limpa, passajada e disposta na arca entre cheiros de rosmaninho; mãos lavadas, unhas rentes e punhos firmes para amassar a boroa; calcular o braçado de legumes, a macheia de cereais, o punhado de tubérculos; espelhar na cantareira a ordem da cozinha, purificar virtudes na esfrega do soalho; deixar a casa num brinquinho e ir à fonte e ir ao brejo, e ir à veiga, e ir ao moinho e ir ao lavadouro e ir à vila…
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O João e a Piedade casaram em 2 de Setembro de 1921. Tiveram quatro filhos. Os dois primeiros morreram. Eu sou o mais novo.
Meus pais, com dois filhos, a Lourdes e o Zé (morrera um primeiro com 3 anos, de desinteria), partilhavam a casa dos avós maternos, soalho de tábuas e loja térrea, que meu avô adquirira com os patacos do Brasil. Nem sempre era fácil o convívio com os velhos, minha avó com acessos de loucura e meu avô com o orgulho agastado por ser brasileiro de torna-viagem apenas remediado como partira.
Eram frequentes a troca de remoques
entre o sogro e o genro, até que pouco tempo antes de eu nascer, o meu pai,
picado pela piada repetida de que nem ganhava para ter casa, pôs os poucos
trastes que possuía na rua, proibiu mulher e filhos de se abrigarem em teto
paterno e toca de procurar casa com a urgência que eu reclamava de cabeça bem
apontada no útero de minha mãe.
Não havia tempo a perder: a única
casa vaga era uma devoluta há muito por ter fama de lá aparecer o Ti
Cachareto, o último dono que a abandonara no caixão.
Tinha o meu irmão quatro anos e a
minha irmã dez. Ela, já com muito juízo para a idade, uns dias antes de eu
nascer vira um homem atravessar o pátio da casa, vindo dos lados de um portão
bem fechado, chamou por ele sem êxito, ainda o seguiu até o ver desaparecer
entre os milhos próximos, como um fantasma. Seria o Ti Cachareto? Minha irmã,
mais tarde garantiria que sim, mas na altura teve o bom senso de guardar segredo para não
perturbar as horas de parto de minha mãe.
A casa ficava numa encruzilhada de caminhos e de veios de água que brotavam aos gorgolões. Daí o nome de Gorgulhão. Não vem no mapa. Não é nome de foro, mas alcunha da natureza. Da vila à aldeia, passavam por lá, tanto o caminho novo, como o caminho velho, enchiam-se lá os cântaros em várias fontes, o gado bebia, branqueava a roupa, mas o ganha pão suavam-no várzea abaixo, ou na vila, ou em Coimbra, ou...no Brasil, homens e mulheres dos lugarejos circundantes, a Barreira, terra de minha mãe, e o Casal dos Pocinhos, terra do meu pai.
No Gorgulhão não se estava; passava-se por lá, com afoiteza de dia, porque de noite, depois das doze badaladas, só o Ti Pires era admitido numa reunião diária de bruxas no transepto dos caminhos onde se erguia, isolada, a casa onde eu fui nascer em 11 de Outubro de 1935. Ninguém naquela casa, exorcizada para sempre com a minha vinda, se lembrou mais de assombros e medos!...
As bruxas foram substituídas por espíritos bons, espontâneos e gratuitos, que guiaram o regresso da família para casa dos avós e não mais deixaram de acompanhar a minha meninice, moldando-a com naturalidade aos bafejos benéficos da Providência.
E foi assim que eu nasci numa casa assombrada, . Era um encanto o petiz, cabelo de cobre, rechonchudo de carnes.
Desde o primeiro dia de vida tenho a mania de ter sido talhado para libertar dos medos os ambientes.
| O Menino da Lurdes |
Quando passo perto, sempre de carro,
sem parar, mesmo sem olhar, digo para os meus botões se vou só, para o
vizinho, se acompanhado, “foi ali que eu nasci”. Onde? Ali e nem aponto ou,
quando indico com um meneio de cabeça, já o carro me empurrou para muitos
metros além, metros?, que digo eu, quilómetros nos horizontes da minha infância,
de bibe e taleiga às costas, por entre milheirais altos, as amazónias da minha
meninice.
Foi ali que eu nasci. Ali é o espaço
fantasiado da memória: minha irmã a deitar corpo de mulher, o que na aldeia
tem pouco a ver com anúncios da fisiologia, no ventre redondo da minha mãe
esperava o parto próprio de suas primeiras ânsias virgens, o seu primeiro
menino, que a mãe já lhe prometera, sim senhor, que agora era diferente,
virara mulherzinha e aquele seria sobretudo o seu bebé, pois quando o Zé
nascera, meu irmão do meio, ainda não havia espigado nela entranhas e sonhos
de mãe.
Sessenta
e tantos anos passados trago ainda
comigo a marca de ter sido o menino da Lourdes. Minha irmã, que desde pequena
manifestara uma aptidão para os rendilhados de lavores delicados, aplicou seus
dotes fazendo espirais com os meus cabelos, uma cascata de caracóis que ainda
agora se revela na rebeldia do meu penteado que nunca mais se pôde libertar da
onda profunda pacientemente cavada pelos desvelos da minha irmã, desde o berço
até às primeiras autonomias de garoto.
E que teria sido a minha vida sem esses cabelos?!... Andei de colo em colo, acolhido com sorrisos, exposto com admiração, passado como um testemunho de beleza plástica, asseio requintado e, sobretudo, uma bonomia infantil contagiante que partia dos braços de minha mãe e a eles voltava com o mesmo sorriso com que os abandonara, sem deixar de os distribuir por igual em cada peito que me acolhera, fosse de rico ou pobre, feio ou bonito.
Virá desse rodopio encantado em que me envolveram os cabelos de ouro a
impossibilidade de dosear minha entrega e a quem me admira hoje, dar-me por
igual todo inteiro?
| Concebido e... de propósito |
Nasci no Gorgulhão, nome que nasceu com as águas que desciam da Fonte da Nogueira e se ramificavam por várzeas e lameiros de verdes púberes renovados, na orla dos quais eu fora concebido.
Concebido e... de propósito. Como é
que sei? Deduzo, fundamentado na convicção íntima de que meus pais sempre me
olharam como o fruto tardio especialmente gerado quando as condições propícias
permitiram repor a trindade natural, abalada com a morte do primeiro filho, o Joãozinho,
anjo de três anos que o Senhor levou e substituiu por mim, com o mesmo nome, e,
dizem, com a mesma entrega gaiata aos apelos da vida.
Surpreendo-me muitas vezes a contemplar os meus pais: forma-se uma onda fluida que apazigua os músculos, sinto-me muito leve por dentro e por fora e, sem estranheza nem perturbação, um sorriso doce e calmo, que eu vejo fosforescer no meu rosto, ilumina de beatitude a tranquila comunhão de meus pais com o Criador.
De lá, também sem estranheza nem
perturbação, irradia do rosto deles a mesma claridade que me assegura o rumo
certo até ao Amor que os envolve.
E como é bom saber que esse rumo fora
iniciado com a fé e a esperança do acto que os entrelaçou no Inverno de 1935
no quarto consentido pelos avós que pensavam abandonar para que eu pudesse
nascer em aposentos próprios compatíveis com os horizontes prósperos que
sonharam para mim desde a hora em que se revelaria no ventre de minha mãe a
festejada presença do meu ser.
É devido a este sentimento muito nítido
que eu evoco os meus pais sempre ao meu lado. Contemplo-os vivos na
eternidade dos gestos, sorrisos, sussurros, expectativas e temores com que me
criaram. Contemplo-os. E todos os dias lhes ofereço o primeiro sorriso que eles
viram nascer no meu rosto de bebé.
| Nasci ali |
Nasci ali. Ali é um advérbio da
memória que alterou as circunstâncias dos espaços e dos tempos, os encontros
das coisas e das pessoas que me trouxeram até aqui, ao desabafo artificial da
escrita, impotente arremedo gráfico da voz universal que me anima.
Aqui e ali, lá e além, não são
pontos nem distâncias. São prazos e movimentos, acelerações e acalmias,
estrondos, sussurros e ecos, ritmos e melodias, nomes chãos de lugares, pessoas
e coisas, onomatopeias simples, “tlim-tlins” da forja do Escabelim, “Ti
Manaça, dê-me um cacho!... — Arre burro, arre macho!...”, rodopios de
assonâncias, vozes e cantares, a cadência sonora dos homens a mantear ao
longe, meus “nônôs” de cana, émulos do pífaro do Ti Esquim Marques e do
clarinete do Inocêncio.
E são linhas, fronteiras, ondas e
declives, o tanque do Galaitas, meu primeiro mar proibido, as represas, eflúvio
de nus, corpos e lodo, minhocas, enguias, astúcias lúbricas nas águas,
interditas em terra enxuta.
E por ali cresci. O ponto terrestre mais significativo do universo é o largo da minha aldeia. Trata-se do centro geográfico da minha vida cujo perímetro nunca foi além de uns quatro quilómetros até à idade de nove anos.
| Na escola primária |
Quatro , se não uns cinco ou mais, eram os quilómetros que eu percorri durante três anos para ir à escola, na vila. Fiz lá a terceira classe. E vale a pena contar como...
Tinha a escola dois professores: Mateus e João Correia. Foram praticamente os professores das gerações de garotos que nasceram entre as duas grandes guerras. Leccionavam duas classes cada um alternadamente: primeira e terceira; segunda e quarta. Diferentes como a água e o vinho. O professor Mateus era a água, límpida, escorreita, com débito certo, comedido e eficaz. E o professor João Correia era mesmo vinho: só dava aulas de manhã, porque à tarde, depois do almoço, nem sempre voltava da taberna onde prolongava petiscos e copinhos tarde fora e noite dentro. Mas o que ensinava de manhã na escola e na própria casa umas semanas antes dos exames dava e sobrava. E ao sábado servia canto coral à escola toda. Ambos utilizavam a pedagogia da palmatória, com descrição o Mateus, efusivamente o João Correia.
Entrei para a Escola em 1942. O meu pai, compincha do João Correia na taberna do Zé David, já sabia há muito que eu ia ser aluno dele. Preferia o outro, testado pelo bom aproveitamento do meu irmão, mas confiava sucessivamente e por ordem decrescente, na divina Providência, nos meus talentos, na ajuda da minha irmã e do meu irmão e... nele próprio, pois andava a preparar-se numa escola de adultos em Coimbra para tirar o diploma da instrução primária. E o que ia aprendendo procurava transmitir-me uma vez por semana quando vinha à terra no dia da folga.
Levei para a escola alguma áurea. Cabelos cor de cobre que ninguém mais tinha nas redondezas. Uma bonomia fora do comum, tanto mais estranha quanto era acompanhada de uma desconcertante sem vergonha que se manifestava em ditos, repetição histriónica de atitudes que ia observando e na cândida partilha de sensualidades lúdicas que raparigas mais espigadas iam aproveitando com a maroteira de que só muito tardiamente me apercebi. E foi desta maneira que animei serões de ricos e pobres e participei em quadros de revista à portuguesa no Teatro Avenida de Condeixa.
Não me faltava, pois, lata para ir à taberna chamar o professor. Se ele estava de maré, vinha; caso contrário aproveitava a minha presença e marcava os trabalhos, a cópia daqui aqui e esta página de problemas, tarefas que eu de seguida ia comunicar aos meus colegas. Fiz o exame da terceira classe. O meu pai fez o da quarta. Consta da minha biblioteca um pequeno livro quadrado Historiazinha de Portugal de Adolfo Simões Muller. No frontispício do livro o carimbo da Casa do Povo de Condeixa e esta dedicatória: Oferece a Casa do Povo de Condeixa pelo melhor aproveitamento do Exame do 1º grau a João de Oliveira Dias Lamas. 1º de Dezembro de 1945.
Quando abandonei a aldeia no Verão desse ano, a caminho de Coimbra, nunca tinha evacuado no assento de uma retrete, jamais bebera água de uma torneira, era incapaz de imaginar um interruptor eléctrico, as novidades musicais chegavam-me na voz dos cegos todos os dias quatro de cada mês, dia de feira, e desconhecia os ruídos, pois não havia sons que não integrassem uma harmonia óbvia nos meus sentidos. Mas levava para a cidade carradas de auto estima.
Mas vieram as primeiras agressões do ambiente novo. Na escola primária da cidade conheci o único professor de má memória que tive. Chamava-se Cardo e fazia jus ao nome. Um dia, numa sabatina com os colegas, apontando para uma frase concreta do livro, perguntou-me e eu respondi bem, que "este" era um adjectivo demonstrativo. E pode ser mais o quê? - perguntou de novo. Olhei para a frase e não me pareceu que "este" pudesse ser outra coisa. Fiquei mudo, temeroso e desconfiado, não fosse a gramática da vila mais pobre do que a da cidade. O colega a seguir, com a jactância de um director de finanças de quem era filho, corrigiu-me e disse que "este" era também o nome de um ponto cardial... Seguiram-se as reguadas da praxe, os elogios ao colega, e ...... o remoque sobre de como poderia ter sido possível o meu prémio da Casa do Povo de Condeixa pelo melhor aproveitamento do exame do primeiro grau.
Abandonei de imediato a escola e fui dizer ao meu pai que não punha lá mais os pés. Grande pai e inteligente o meu. Aceitou a indignação. Combinámos repetir a quarta classe com outro professor, cujos dotes o pai já conhecia por ter sido preceptor da Tutoria. Entretanto, passava as manhãs e as tardes a brincar com um gaiato da Casa de Miranda do Corvo do Padre Américo e que fazia prolongadas estadias no Lar de Coimbra, entregue aos cuidados da minha Mãe que pacientemente lhe untava a cabeça rapada com um unguento castanho para lhe debelar uma tinha renitente. O Luisito acabou por se afeiçoar à minha mãe e mãe lhe chamava. Meu irmão, "este" sim foi um ponto cardial que orientou a extensão ampla do conceito de família dos meus horizontes de criança.
Os pupilos da Tutoria aceitaram-me como um deles. Conquistei-lhes a confiança por ser mais cúmplice deles do que da vigilância do meu pai. Os ex-pupilos do Lar adoptaram-me e levavam-me aos domingos conhecer a cidade. E nem a tinha do Luís se me pegou, nem as inclinações delinquentes dos rapazes da rua beliscaram o meu comportamento. Sem ser da rua, vivi a realidade e absorvi o espírito da obra de Pai Américo: - obra de pobres, para pobres, pelos pobres.
Em Outubro de 47 fiz a segunda matrícula na quarta classe. O professor Azevedo era gordo, gordo, gordo. Tronco barriga e ancas era um bloco denso e redondo. Uma cabeça sem pescoço, sobrancelhas cheias, bochechas pronunciadas, olhos e boca que passavam da seriedade à meiguice sempre na circunstância apropriada. E ensinava. E até dava ginástica. E exemplificava. Nem sempre era fácil copiar-lhe os gestos, porque nos distraíamos a antecipar a hora em que o cilindro do seu corpo se desprendesse do telheiro e rolasse sobre os nossos corpos bem arrumados em xadrez no pátio da escola. Regressou a auto estima que havia trazido da aldeia. Éramos vinte e oito colegas. Fiz parte da equipa de quatro, seleccionada para representar a escola numa competição inter escolas, no dia 3 de Maio de 1947, Comemoração da Descoberta do Brasil: Octaviano, Chinana, Barros e Lamas. Ganhámos. A minha primeira vitória citadina.
| Entre duas grandes guerras |
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Este texto é um prefácio ao livro ERA
ASSIM... CONDEIXA - CRÓNICAS DE UM TEMPO PASSADO, da autoria de Cândido
Pereira, com ilustrações de João Pocinho, capa de José Barrico,
coordenação geral de Mário Cerqueira, montagem de Edições Nova Gaia , Ldª,
com impressão e acabamentos de Litovisão - Sociedade Gráfica Ldª.
Para a compreensão deste prefácio
LEIA!
.os extractos condensados.
Há mais de uma dezena de anos que um grupo de condeixenses se reúne todos os anos no último sábado do mês de Junho. Juntam-se nos bancos da escola primária, trazem os brinquedos de meninos, jogam ao pião, ao fito, fazem concursos de tiro à fisga, dizem larachas uns aos outros, recordam pessoas, coisas e loisas e cantam, cantam as cantigas virados para o quadro preto, enquanto um deles, de vara em punho, feito professor a mando dos outros, tenta, nunca bem sucedido, pôr ordem na aula endiabrada. E jantam ou almoçam juntos. E passeiam: Senhora do Círculo, Cajemilo, Rabaçal, Bruscos, Vila Seca, Atadoa, Alcabideque, Sebal, Anobra, Barreira e mesmo sem sair da vila ou da praça, vão à Lapa e a Condeixinha, ao Outeiro, à Senhora das Dores, à Quinta de São Tomé… — aos lugares da memória.
Quem são eles, os condeixenses, que assim resolvem ser crianças uma vez por ano? Uma geração nascida nos anos vinte, anos trinta e até anos quarenta: o mais velho pode muito bem dizer ao mais novo "cala-te lá que podias ser meu filho"… E o que é que os irmana? A escola masculina Conde Ferreira: duas salas, dois professores (Mateus e João Correia) e três décadas entre duas grandes guerras.
É de memória que se trata quando nos encontramos. Somos memória, esse vai-vem ambivalente que nos leva do passado ao futuro e nos traz de volta um e outro ao presente — afinal a forma que encontrámos para não envelhecer, porque cada um transporta em si a criança que sobrevive às paixões dos corações de adultos, no dizer que aqui recordo de Fernando Namora, um dos nossos condiscípulos que estudou nas mesmas salas, também nos anos vinte e trinta, só que com outros professores.
Memória é diferente de nostalgia. Esta refugia-se no outrora porque quer esquecer desde já o futuro; aquela dá relevo ao passado, porque não quer embrulhar o presente no egoísmo da solidariedade abstracta e antes se abeira do futuro sem medo, porque pratica a solidariedade concreta e gratuita de um encontro renovado de meninos.
Junho de 1998. O derradeiro sábado do mês. A escola, os bancos, os rostos da memória. Alguém me põe nas mãos umas folhas dactilografadas em forma de livro e pede-me que leia alto algumas páginas. Leio. Afinal a pedagogia não mudou muito: é fácil sossegar os alunos, cativar-lhes a atenção e fazer explodir em cada um a emoção partilhada da memória colectiva de todos; basta que a motivação da matéria seja consensual.
O consenso veio pela mão das "Crónicas De Um Tempo Passado" que o Cândido Pereira escreveu sob o título de "Condeixa Era Assim…". A memória do Cândido é a nossa memória. Logo ali assumimos o compromisso de tentar publicar as crónicas, tanto mais que um dos nossos, o Mário Cerqueira, é editor.
O Mário pede-me uma introdução do manuscrito e, obtida a anuência do autor, a apresentação do livro como marco que perpetue esta ideia pouco vista de promover um encontro anual de uma geração.
O livro do Cândido Pereira fala de pessoas, coisas e loisas de Condeixa. É um livro de dispersos que fustigam a nossa memória: não é um exercício intelectual de razões; é o ressurgimento criativo das emoções que a corrente psíquica ancestral condeixense proporciona e que ainda nos anos trinta e quarenta sustentava as razões contemporâneas da vida colectiva daquela época — razões que não podiam resistir à aceleração vertiginosa da história que se operou na última metade deste século e, particularmente, nos vinte anos mais chegados.
Repito: a memória do Cândido é a nossa memória. Mas é a memória vista por dentro da vila e por alguém que nunca a abandonou. Talvez os mesmos palácios, os mesmos lugares, as mesmas figuras, os mesmos gestos e ditos, as mesmas rivalidades e as mesmas brincadeiras sejam simultaneamente as mesmas e outras vistas de fora da vila.
Ora eu não sou da vila. Sou da Barreira, uma aldeia, cujo nome suponho nada ter a ver com algum barro que por lá havia, mas com a barra que em tempos idos controlava as fronteiras dos domínios senhoriais. Eis uma hipótese racional que nunca me interessou averiguar. Mas devo confessar que transformei a hipótese numa certeza emocional.
Permitam-me, então, que eu exerça a memória reflexiva de forasteiro sobre as mesmas coisas e loisas de antanho e, com o mesmo prurido envergonhado com que o Cândido fala dele, eu possa descuidado falar de mim e dos meus também — até porque uma das figuras típicas e extravagantes que este livro recorda é o meu querido tio Joaquim Loirinho…
No nosso tempo a primeira grande divisão social era entre senhores e tis. Havia subdivisões nos senhores: senhores com dom, senhores com título profissional, e senhores simplesmente senhores; entre os tis, não constavam os subgrupos, mas apenas às vezes a ausência do ti e quando sucedia cair o ti ao fulano e ao beltrano adultos, então estávamos na presença ou de estatuto especializado ou de bobo da colectividade ou de postigo na porta da indigência. O Albino, o Cavaca, o Lisboa, e o André nem sequer eram tis.
Costumo dizer que vivi na Barreira à distância de dez anos de Coimbra. Saí do lugarejo filho do Ti João Tendeiro e da Ti Piedade Elvira e num passe de mágica transformei-me em filho do Sr. João e da Sr.ª Piedade Lamas. Fiquei a saber que, pelos vistos, os senhores moravam nas cidades e vilas e os tis nas aldeias. Na verdade, não havia senhores na Barreira — os que apareciam, Campas, Calhordas, Alcântaras, Moreiras Lopes, vinham de fora e não eram de lá… De lá, pé descalço, saco de linhagem em forma de capuz pendurado na cabeça contra a agressão das chuvas, no bolso o arremedo de uma refeição, geralmente um naco de broa e azeitonas ou o ovo frito embrulhado em papel pardo, livros e cadernos na sacola de papelão ou na taleiga, os "deveres" mal alinhavados na véspera à luz da candeia, da lareira ou do candeeiro — de lá subíamos os filhos da Ti Coisa e do Ti Coiso até à escola do Outeiro, promovidos a companheiros dos filhos dos senhores da vila.
Condeixa é o concelho da Beira Litoral com a maior densidade de casas senhoriais. O Cândido neste livro acha que foi a beleza da terra que atraiu tanta gente endinheirada da fidalguia. E porque não. Mas mais do que saber das razões da instalação, dou comigo a reflectir sobre a influência que teria exercido essa densidade de fidalgos sobre o tecido social da vila e dos lugares vizinhos.
Desde logo, o modelo de promoção social é sua excelência. E a propósito o livro relata o saboroso diálogo entre o Pataco e a D. Conceição Pires. Foi preciso que o Pataco perdesse o juízo para se atrever a tratar por tu a senhora dona que não era, mas podia ser excelência. O Pataco "também eu, também eu…" — podia ser excelência, mas no papel de bobo da corte …
Por vezes, era entre as camadas mais populares que se
assistia à súbita transformação do linguajar parolo em solenes tiradas de
enriquecido efeito estilístico. Numa contenda que envolveu o despique de dois
gaiteiros da Barreira, o Farelo, que nunca andou na escola, empertigado e
solene, virou-se para o outro Zé Bombo e saiu-se com esta:
- Venda o seu estrondo e vá verdemerda.
O gesto e altivez eram de senhor, e a metáfora do estrondo mais a aliteração
do "v" sopravam fidalguia ao arrepio da gramática popular.
Tantas casas solarengas num concelho tão pequeno significavam a balcanização de Condeixa. E balcanização significa multiplicação de fronteiras, rivalidades culturais, jogos aleatórios de alianças e subserviências, um mundo larvar e insondável de desagravos sociais conseguidos ou frustrados, a alternância entre períodos eufóricos de criatividade colectiva e outros de pasmo abúlico — enfim, a tendência para encontrar um pólo de atracção hegemónico, neste caso, a vila, que assim se tornava ao mesmo tempo símbolo de poder e rebeldia.
A morfologia do solo ditava de imediato duas paisagens geográficas, humanas, económicas, sociais e culturais diversas. De um lado a serra, do outro os pauis. Duas gentes e duas perspectivas de futuro: quem se atreve a negar que a serra era muito mais madrasta que as várzeas e os lameiros e até os brejos? Os serranos vinham à vila ao mercado das trocas e partiam serra acima com menos do que haviam trazido. É o sentido da ritmada melopeia serrana que soava assim arre burro para Condeixa, lá o leva, lá o deixa, lá o troca por uma ameixa
É claro que as gentes dos baixios também levavam pouco mais do que a ameixa: ambos, desde o papel para a cantareira, até à fazenda para renovar a blusa e a saia e o fato domingueiro, passando pelo pingo de solda no latoeiro, o sebo para as botas, a ferradura das alimárias, o candeeiro que se partiu, a cântara que ficou na fonte, o papel selado nas repartições e…, o que custava os olhos da cara, os juros da hipoteca que caucionava idas e vindas de gerações de brasileiros de torna viagem quase sempre mal sucedida — disto e de muito mais se alimentava a diferença entre a vila e o resto. A vila engordava com as hipotecas do campo.
Ao dobrar a primeira metade do século que agora finda, sair de Condeixa a caminho da Barreira em noites de breu, era, a partir dos loureiros, entrar num túnel escuro de mais de um quilómetro até encontrar a primeira torcida esmorecida de uma lamparina aldeã por entre as frestas de portas e janelas mal calafetadas.
Os da vila já estavam no último estádio da noite técnica, electricidade nas ruas e nas casas, enquanto nós furávamos as trevas da noite natural com relâmpagos de pedreneira, com pavios mortiços a boiar, desprotegidos, num copo com borra de azeite, com a mão em concha sobre a chaminé a dosear a chama do candeeiro de petróleo conforme a corrente das aragens, ou, supremo luxo de uns tantos remediados, com a lanterna de carbureto equipada contra intempéries.
As noites da Barreira da minha meninice eram dominadas pelas bruxas que se postavam nas encruzilhadas dos caminhos: era contra elas e não contra as penicadas que nos tínhamos de precaver quando armávamos o badalo — dona de casa que se prezasse guardava o mijo numa cântara velha para azotar a horta e não o desperdiçava nos desvarios do Entrudo.
Só crianças e jovens eram perdulárias com as descargas fisiológicas que escapavam ao controlo dos pais. Certa noite, num desses Entrudos que Deus haja, o rapazio fez um boneco de palha, vestiu-o de trapos velhos; arrearam as calças e, ordenadamente, depositaram sobre o boneco, da cabeça aos pés, o que na tripa de cada um restava da papa-la-berça engolida na ceia. Espalharam a trampa colectiva pelo espantalho que no escuro da noite se não distinguia de nenhum deles.
Foram armar o badalo em casa do Ti Macio, homem que afinava
com a brincadeira e já tinha prometido agarrar um e dar-lhe das boas. E assim
foi. Ao primeiro toque do badalo abriu de rompante a porta e gritou no escuro
para a mulher que ficara ao borralho:
— Traz a candeia, mulher, que eu já agarrei um.
Quando a mulher veio à porta mais paciente para as diabruras que o marido,
disse-lhe:
— Larga o rapaz, homem. Ele até cheira a merda fresca.
O Ti Augusto Macio agarrado à merda do espantalho descarregou o mau perder a
resmungar toda a noite com a mulher.
O nome de família do Ti Augusto não era Macio. E como diz o Cândido no capítulo dos Epítetos deste livro existiam poucas famílias que não tivessem pelo menos um dos seus membros apelidados. "Epíteto" é uma palavra nobre; "alcunha" bem mais do povo. Dirão os sociolinguistas que "epítetos" estão mais ligados à figura grandiloquente da hipérbole e "alcunha" à figura apoucante da lítotes. E se há famílias que ganham um cognome com o epíteto, outras há que perdem o nome de família com a alcunha. Cá para mim, esta autêntica "alcunhomania" de Condeixa e arredores tem também raízes na estrutura social solarenga e palaciana do nosso concelho: quem conserva o patrónimo familiar sem a beliscadura do epíteto, se calhar é de linhagem pura; quem perdeu na floresta de alcunhas a raiz e os ramos da árvore genealógica, se calhar é um espúrio rebento de qualquer servo da gleba de antanho.
Confessei atrás que só depois de sair da Barreira fiquei a
ser conhecido pelo nome de família. Lamas é um nome que em Portugal ficou
muito prestigiado com a escritora Maria Lamas. Sei que há no norte do país uma
Casa Lamas enobrecida. Em Lisboa são também muito conhecidos os Lamas da
Junqueira. No meio de tantos Lamas ilustres, há muita gente que me pergunta se
eu sou um deles. Eu respondo e aproveito para fazer o meu desagravo ancestral:
— Não, essa gente não tem a honra de pertencer à minha família. Eu sou
doutro lamaçal: os Lamas da Barreira e dos Pocinhos.
Porque dos Pocinhos e grande Lamas era o meu tio o Joaquim Lourinho, um homem também muito singular no dizer do Cândido a quem com emoção agradeço tê-lo metido entre as Figuras típicas de Condeixa. Não me levem a mal que eu reserve para o meu tio uma palavra muito especial.
O meu tio era um filósofo intuitivo que obedeceu sempre até à morte a este princípio pós-moderno: se conseguires viver sem trabalhar, não trabalhes. Ele tinha razão: a palavra trabalho vem do latim tripalium que era o nome daquela geringonça feita de três paus a que amarravam os escravos quando abandonavam os trabalhos forçados. O meu tio, o Lourinho, antecipou na vida os versos de Fernando Pessoa Ai que prazer / Não cumprir um dever / Ter um livro para ler / E não o fazer!
Era um hedonista contrário ao titanismo febril do ocidente e, sem o saber, muito mais adepto da ataraxia oriental. Montou a lojeca em Condeixinha já com a intenção de não arredar uma palha para servir os clientes — eles que se servissem e metessem o dinheiro na ranhura do balcão. Disse-me muitas vezes que não se importava nada de estar preso, desde que o juiz lhe confiasse a chave da cela — não a queria para fugir, mas para não se sentir condenado.
Adoeceu de uma doença nervosa estranha que lhe tolheu os
braços. Quando o vi assim lamentei. Resposta imediata dele:
— Ó filho, Deus sabe muito bem que eu não preciso dos braços para nada.
Foi a partir dessa doença que ele amealhou o suficiente para a velhice. Fizeram-no cauteleiro. Ele tinha apenas de passear os bilhetes e quem quisesse cautelas pegava na tesoura presa a um cordel, cortava-as, punha-lhe o dinheiro no bolso e fazia os trocos se necessário…
Sobreveio-lhe novo mal: amputaram-lhe duas pernas. Não precisava dos braços e deixou de precisar das pernas para manter o espírito inteiro. Vive na memória de Condeixa como um extravagante. Vive na minha memória como exemplo da gratuitidade pura.
Regressemos à vila e à meninice. Nossos pais ainda beneficiaram do excepcional período de pujança cultural que Condeixa viveu sob o impulso do Padre Dr. João Antunes — o Padre-Boi — entre 1894, ano em que fixou residência na vila, e 1931, o ano da sua morte. A partir da sua morte, a cultura popular de Condeixa tornou-se "palácio-dependente". Eu partilho do respeito que é devido à benemérita D. Elsa Sotto Mayor, mas, à distância de cinquenta anos, interrogo-me sobre possíveis efeitos colaterais negativos do excessivo paternalismo palaciano. Mais de meia Condeixa vivia à sombra do Palácio e até, outro dado da minha memória emocional, a fertilidade das vacas da redondeza dependia do boi do paço…
No tempo do Padre-Boi era diferente. Muitas das suas incitativas, a Escola de Desenho Industrial e de Artes e o Orfeão de Condeixa, o melhor do País no seu tempo, nasceram e morreram com ele, mas o efeito impulsionador da criatividade popular manteve-se viva para além do seu desaparecimento.
A criatividade de Condeixa, nas suas manifestações das artes plásticas (veja-se a ilustração deste livro), da música, da poesia, da prosa e do teatro merece um monumento público. Um monumento que não esqueça a inspiração popular anónima, como esta deliciosa quadra que a Ti Conceição Marques da Barreira mandou ao namorado nas trincheiras da 1ª Grande Guerra em França:
O beijo que tu me deste
Ao pé do portão da quinta
Entrou-me no coração
Nunca mais de cá se arrinca
Obrigado, companheiros de geração, reunidos aqui na escola no último sábado do mês de Junho de todos os anos. Vamos lá ver quem será o último de nós a passar o testemunho aos filhos, netos e condeixenses vindouros.
Lisboa, 23 de Abril de 1999