SERÁ DEUS TODO PODEROSO?

 

Todo o crente tem dúvidas. O termo “acreditar” envolve a significação de dúvida. À pergunta “acredita?” quem tem a certeza responde “não acredito, sei.”. Ninguém pode demonstrar aquilo em que acredita. Mas o discurso demonstrativo, seja o racional e/ou da fé, tem de obedecer a uma lógica interna e enquadrar-se num sistema encadeado de juízos e raciocínios coerentemente condizentes com o ponto de partida que anuncia um ponto de chegada. E o ponto de chegada é este: a existência fora do pensamento de uma singularidade de cuja essência narrável não consta a nota caracterizadora “ser criado”. Deus é.

O verbo ser pede “nome predicativo do sujeito. Deus é … o quê?  As respostas vão-se procurar ao ponto de partida e apuram-se ao longo de um processo de integração e superação de atributos , processo esse que não pode deixar de ter em conta os desenvolvimentos dos saberes e as achegas da evolução cultural individual e colectiva. Essa reflexão sobre Deus, como objecto de estudo, tem uma história de investigação e ensino e constitui a teologia e a teodiceia, presentes em várias culturas, mas particularmente enraizada no caldo cultural do ocidente: o problema da existência de Deus foi tratado na idade média pelos teólogos e no século XVII pelos filósofos.

Não se deve perder esta perspectiva cultural da histórica do “problema da existência de Deus”. Até ao século XVII ( data avançada apenas por comodidade didáctica) o “problema da existência de Deus” não estava na “existência ou não existência”, visto que era uma dúvida que a sociedade não manifestava, mas, havia o “problema” de encontrar um estatuto lógico para o conceito de Deus, cuja existência não estava em causa. As chamadas “provas da existência de Deus” formuladas pelos teólogos e filósofos crentes devem ser entendidas neste contexto. E algumas convencem alguns não-crentes: a divindade é um conceito metafísico perfeitamente ao alcance da razão e sobre a existência dessa realidade ôntica o não-crente com honestidade intelectual diz “não sei”. São os “agnósticos” que dão da  “existência de Deus” o benefício da dúvida aos crentes e… ao próprio Deus.

Encontramos então a “dúvida” entre os crentes e os não-crentes. Mas há quem não tenha dúvidas: os ateus sabem de fonte limpa que Deus não é. E então, convictos de que Deus não é, esgrimam argumentos  contra os que estão convictos de que Deus é. Se a esgrima se mantivesse apenas no plano da metafísica, o embate entre crentes e ateus resolvia-se nas academias. Mas, o pior é quando uns e outros resolvem transformar o debate em combate para moldar a  sociedade segundo as suas convicções.

Ora, senhores crentes, senhores agnósticos e senhores ateus, AS RELIGIÕES NÃO SÃO A DIVINDADE. As religiões são um conjunto de práticas, regras e ritos de que a história da humanidade dá conta e que enquadram um conjunto de pessoas que nessas práticas, regras e ritos dão expressão ao conceito de divindade que mora na consciência dos homens desde que há memória das suas origens até hoje.

É verdade que a história das religiões são, não só, mas também em dimensão intolerável, um rol de horrores praticados em nome de Deus. Se ao menos o 11 de Setembro de 2001 fosse o último! Mas em nome da “tolerância” da secularização agnóstica e ateia militantes, quantos holocaustos e quantos gulagues?  E não avanço este paralelo para contabilizar horrores. Cada um meta a mão na consciência e medite a sua história pessoal e seus compromissos públicos: talvez neles reveja quanto em nome de ideologias aponta o argueiro no olho vizinho e esquece por táctica favorável aos seus interesses a trave na frente dos próprios olhos. Recorde-se o exemplo de desonestidade intelectual dado por tantas inteligências badaladas da intelectualidade, as de direita, a divulgar e a condenar os gulagues, esquecidos do holocausto, e as de esquerda vice versa.

A história dá conta de fundamentalismos laicos e religiosos. Há também ateus militantes que pertencem aos subconjuntos humanos que nunca têm dúvidas. As perguntas que os crentes e não crentes trocam entre si para supostamente chegarem a uma resposta lógica que destrua as convicções dos interrogados, geralmente, supõem que o interpelado afirma e aceita uma determinada premissa ou cauciona uma determinada posição, e depois interroga com a mais convencida expectativa de que a resposta só pode confirmar as suas certezas de interpelante. A maior parte das  perguntas são estereotipadas interrogações de quem não está minimamente interessado em ser esclarecido. Perguntas e respostas têm séculos de reformulação e bibliotecas de tratados que nunca convenceram interrogantes nem demoliram as convicções de interrogados.

Por mim deixei de dar eco às tentativas directas de demonstrar (no sentido que a demonstração toma nas etapas do conhecimento científico) a existência de Deus. Pelo contrário, lanço o desafio de considerarem o problema de Deus não como solucionável através das regras de derivação de teoremas, mas como “sinal de transcendência que se prova como se prova o vinho” (claro, para quem gosta de vinho, que é o meu caso) e de falarem dessa “experiência sui generis” de que há memória na vida individual e colectiva dos homens.

A manifestação desta crença nestes termos muito interiorizados e intimistas não descura a razão como processo de fundamentação sistemática de juízos que partindo de um mínimo de pressupostos caminhe até ao máximo de explicações. Mas isto não quer dizer que se tenha a todo o tempo, aqui e agora, necessidade de fundamentar racionalmente as afirmações produzidas. Parte dos argumentos agnósticos, estribam-se numa espécie de “mecânica do espírito” que julga ter encontrado as leis científicas das dinâmicas sociais, capaz de predizer os fenómenos sociais com rigor científico segundo o modelo da mecânica celeste, da física e da química, enfim, que vive no pressuposto de que qualquer situação onde se observe associação e dissociação de fenómenos nos põe em presença de um campo de forças reguladas por leis objectivas… Bem entendido, nem a alma se encontra na ponta do bisturi, nem Deus nas bielas das locomotivas, nem o amor nas caldeiras de expansão de gazes, nem as emoções entre zeros e uns do “software”…

Não será tempo, agora que tanto se aproxima a teoria do caos, da física quântica e do drama das mudanças sociais imprevisíveis, de haver um pouco mais de “modéstia epistemológica” e repensar uma metafísica para a ciência postmoderna que tenha também em conta os “tais sinais de transcendência”, essa “irreprimível necessidade de Deus”, visível para quem O experimenta como são só visíveis os quanta para quem os observa?

Em todo o caso, não quero opor  ao  ultrapassado propósito de “cientificar” os fenómenos sociais  um outro propósito, ainda a cheirar mais a mofo, o de “teologizar” a ciência. Mas insisto numa metafísica que dê conta das singularidades que  não admitem definição, e entenda  a razão e a emoção, ambas presentes e indissociáveis nas estratégias das decisões conscientes que dão  conta da existência, porque eu existo, acredito ter de me encontrar com o radicalmente outro que me faz ser e… gosto muito de viver, prazer que partilho com crentes e não crentes quando mutuamente nos respeitamos.

O agnóstico pressupõe  que o universo e a vida tal como se desenrolam não necessitam do Deus que os homens têm imaginado e as religiões enquadram para ser entendido. O Bem em si não existe, mas está por fazer. O homem para lá caminha com a força da razão. Há mesmo uma militância ateia que atribui os atrasos em direcção ao “Bem” às  Sociedades Obscurantistas Universais ramificadas em bafientas religiões que propagam o ópio da esperança da fé e da caridade, ópio de emoções ilusórias que andam a minar a razão motor único do progresso único – a Redenção Final.

Mas não é isto uma religião? E não opera no mundo? Não tem um papa, o Presidente dos Estados Unidos? Não tem um conciliábulo, a ONU, não tem uma Bíblia, a Declaração Universal dos Direitos do Homem? Não tem os seus concílios, as Reuniões  Internacionais de onde saem as Encíclicas do Comércio, da Livre Circulação, do Ambiente, dos Homens, das Mulheres, das Crianças tudo em nome do Deus-Fim-Da-História que a razão anuncia? E esta religião não tem uma história sangrenta? E a razão não abandona os seus filhos? E os ateus não estarão entre os mais proeminentes clérigos desta religião e só por isso ocupam menos espaço nas prisões, mas mais espaço nos tribunais? E as boas obras?. Em vez de vacas sagradas, vacas loucas; em vez de água benta, água inquinada; em vez de pão nosso de cada dia, pão nos caixotes do lixo; em vez de ar puro, ar poluído; em vez do próximo, o cliente; em vez de etc., etc. e tal, porque para bom entendedor meia palavra basta… Enfim, o senhor Autor Desconhecido tem um deus na manga que ainda vai criar um Adão Autómato Perfeito que certamente encontrará a senhora Eva Autómata Perfeita e darão origem à Nova Ordem Genética Universal Redimida.

Devo confessar que não nutro qualquer simpatia pelas doutrinas que querem convencer os humanos de que não devem cultivar a alegria de o serem. Gosto mesmo muito de mim e de viver neste mundo e das grandezas e misérias, minhas e de meus companheiros de viagem. O que me atrai na narração Bíblica da criação é imaginar os sucessivos estádios ali evocados, o criador mais ou menos satisfeito com o evoluir da sua própria obra até que lhe pôs o ponto, a pincelada, a nota final, exclamando “é muito bom”. E assim nasceu o homem. Como todo o criador que ama, retira-se, precisamente para que a obra se torne livre e evolua ao sabor de encontros e desencontros de leituras díspares. Quem não oculta esta alegria de viver e se recusa sacrificar no altar dos interesses a vida que não é sua transporta consigo e passa a outros, ao mundo e à vida a memória do Criador. E não morre: apenas vai mais além.

A intervenção de Deus na história passa pelo coração dos homens onde reside o apetite do divino. É portanto um problema de fé. Os acontecimentos do mundo e da vida, desde os mais banais aos mais significativos quando vistos pelos olhos do crente são sempre milagres. Confundir estas percepções das mentes individuais e colectivas com as formas narrativas (sejam as da Bíblia ou outras), sempre simbólicas, de que as várias linguagens se serviram para as transmitir ao longo dos tempos, é, nos dias de hoje, uma parolice cultural de quem desconhece ou quer mistificar os desenvolvimentos mais críticos dos estudos da semiologia ou da antropologia em sentido lato.

A Bíblia é um texto simbólico. A verdade que de lá se extrai não é uma verdade no sentido grego que respeita a concordância da proposição necessária; trata-se da  verdade em sentido judaicocristão que respeita o acordo da atitude com o compromisso pessoal assumido. O contrário da verdade grega é o erro; o contrário da verdade judaicocristã é a mentira. A Bíblia dá conta de um compromisso entre um povo e o Deus que o criou. Relata não a verdade do acontecido (mesmo quando acerta em sentido grego e se reconhece como documento útil), mas uma atitude de fidelidade ou infidelidade ao compromisso com Deus (mesmo se mente em sentido judaico cristão). Quando Jesus aconselha “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, o caminho, a verdade, e a vida de Jesus dão conta da fidelidade a um compromisso que O levou à morte a mando de César e à  ressurreição a mando do Divino. Quem tenha olhos veja e quem tenha ouvidos ouça. A verdade é esta: César cobra, Deus dá.

Religiões correctas? Todas emanam das sociedades. Pessoalmente, até penso que Jesus deu o golpe final em todas as religiões e directamente não fundou nenhuma. Repare: depois de uma religião que diviniza o homem, o que se pode esperar mais? Mas com isto não quero encerrar debate nenhum, nem afirmar uma verdade indiscutível: contudo, fascina-me a conclusão do diálogo entre Jesus e a Samaritana quando Cristo profetiza que o Pai será adorado em Espírito e em Verdade e não na Samaria, em Jerusalém, ou no monte de onde ambos contemplavam a direcção da chamada cidade santa. A “minha religião” (notem bem nas aspas) tem tantos defeitos que se eu tivesse algum peso institucional, faria os possíveis para reunir um Concílio Ecuménico com um só ponto na agenda: desobrigar Deus de ter de caucionar as asneiras que as assembleias dos crentes e os crentes individualmente (e os não crentes, já agora…) lhe têm vindo a atribuir ao longo dos tempos.

O argumento que mais embaraça o crente é o da contradição entre a afirmação de um Deus Todo Poderoso e Bondoso e a existência do mal. O mal existe (quem o pode negar?), e muito menos Deus que sabe tudo. Mas se sabe e não o pode eliminar, não é todo poderoso; se sabe e pode e não o faz, não é bom. Bom e todo poderoso ao mesmo tempo é que não pode ser. Logo… não existe. As respostas, tanto as “doutorais” (o mal engendrado pela decisão do livre arbítrio que se opõe a sentido da existência, ao bem), como as da cultura popular (Deus escreve direito por linhas tortas e há males que vêm por bem) acabaram por se ajustar à chamada regra do mal menor, partilhada tanto por crentes como não crentes.

MAS… (reparem nas maiúsculas) MAS… sucedeu o holocausto.

Progresso era o conceito que sintetizava o grau de desenvolvimento científico, técnico e cultural desde os séculos XVIII e XIX . A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão desde 1789 era o catecismo laico de uma moral pública que defendia o cidadão dos abusos do poder. As sucessivas e rápidas separações entre o Estado e as Igreja guiava os passos titubeantes mas direccionados para a tolerância e o convívio de sexos, de credos e de raças. Muitas guerras? Mas foi possível pôr de pé a Cruz Vermelha Internacional. Muitos nacionalismos emergentes? Mas nasceu a Sociedade das Nações para manter a paz e o desenvolvimento da cooperação entre os povos. Não evitou outra guerra mundial? É verdade. Mas as nações confiavam na diplomacia para ajustar interesses divergentes.

MAS o fim da guerra trouxe à consciência colectiva o horror do holocausto. O que ali se passou era inacreditável, mas deu-se com a conivência de silêncios, de cobardias individuais e colectivas, de cálculos frios ao serviço de estratégias ideológicas supostamente redentoras. O horror do holocausto no coração da Alemanha, foco da ciência mais desenvolvida, da filosofia mais profunda, da música mais requintada, da prosa, poesia e artes plásticas mais requisitadas, foi talvez perpetrado por um louco demoníaco, mas foi executada e consentida pela civilização ocidental cristã, racionalista e laica. O horror atingiu o paroxismo do intolerável. Alguém não deveria ter consentido o intolerável. E se os homens não puderam, não se desculpa ao Todo Poderoso que o não tenha feito.

MAS será Deus todo poderoso?  O holocausto veio revolucionar profundamente o pensamento teológico e as relações das confissões religiosas entre si e delas com os agnósticos e até ateus, em suma as relações entre a visão secular e a visão religiosa do mundo e da vida. Na presença do mal intolerável (aquele que nunca poderá ser considerado mal menor sem escândalo) e  face à premissa que admite ser Deus Bondoso e Todo Poderoso, concluem os não-crentes que Deus não existe, concluem os crentes que Deus não é Todo Poderoso.

Entre os cristãos católicos, ortodoxos e protestantes o movimento está ligado às chamadas teologias liberais por oposição às teorias oficiais das respectivas igrejas institucionalizadas. Aliás, a ortodoxia e heterodoxia já se passeiam de mão dada no interior de várias confissões em movimentos espirituais que abandonaram as perspectivas verticais do poder e do saber e exploram as práticas horizontais da partilha da fé no mesmo Deus que não é todo poderoso, mas tão só plenitude de amor.

A doutrina de que Deus é Amor e tudo o mais que se diga de Deus bate ao lado é cristã e foi tratada por São Paulo no célebre hino à Caridade (Primeira Epístola aos Coríntios, XIII), palavra que não cobre o significado actual de caridade, mas o termo latino que no Novo Testamento significa o mesmo que o termo grego Agapè, isto é Amor. Para quem suponha que estas matérias dizem apenas respeito aos crentes, atrevo-me a aconselhar a leitura  do “Pequeno Tratado Das Grandes Virtudes”, edição portuguesa da Editorial Presença, Lisboa 1995 do filósofo francês André Comte-Sponville. Este autor, que não é crente, faz uma análise racional ao sentido que a Caridade (=Agapè) tem em Deus e no ateísmo.

Nunca vi nenhum crente expor com maior propriedade a noção “Deus é Amor” quanto este não-crente. Mas não é uma demonstração da não existência de Deus. Comte-Sponville, como não é crente, apenas se dispõe a demonstrar que a esperança e a fé não são virtudes (nisto divirjo do autor) porque enquanto valores morais encarnados confundem-se com a coragem que é um valor moral encarnado por crentes e não crentes. Mas o que pôde a coragem de crentes e não crentes frente ao horror de holocaustos e gulagues? Por isso termino com esta interrogação: Não passará pelas virtudes da esperança e da fé o alcance da tal condição mística que segundo Malraux (outro agnóstico?) é necessária  para passar além… do século XXI?

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