LAMPEJOS DE DEUS

 

1- Nunca rejeitei o passado. Não me lembro de ter desejado alguma vez construir deliberadamente o futuro. Quanto ao presente, incomoda-me a prolongada rotina da passagem. Sou um retrógrado vigilante: anseio por reencontrar o momento que deu corpo ao enlace de meu pai e de minha mãe que me gerou. Esse foi o momento em que Deus se fez história na minha vida.

2- Deus cansou-se de ser sério e criou o mundo universo e a vida. Retirou-se depois para rir à vontade. Só quem também não leva a sério o mundo, o universo e a vida o ouve rir.

3 - A ave é mais réptil que o réptil porque rasteja no ar; o homem também é nitidamente mais macaco que o macaco (Jean Rostand) porque macaqueia Deus na imaginação; Deus também é mais Homem do que homem porque se humanizou no Mistério. Porém, a evolução ou aqui termina ou aqui tem origem: mais homem do que homem?... Mais Deus do que Deus?... Impossível. Estamos sempre no princípio e no fim do mistério: Deus feito Homem, o Homem feito Deus.

4 - E como é que tu és Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem? E Jesus respondeu: O que é que tu achas? Serei Verdadeiro Deus ou Verdadeiro Homem? Respondi: Tu és Verdadeiro Homem. E perguntou: Por que é que não me achas Verdadeiro Deus? Respondi: Porque Deus não se vê e tu estás aí. Perguntou de novo: Mas achas que sou Verdadeiro Homem? Disse: Acho sim. Porque só tu tens palavras de Vida Eterna. Então, concluiu, o Verdadeiro Homem em cada um de nós revela o Verdadeiro Deus.

5 - A fé, a esperança e a caridade são virtudes teologais. Para as viver na história, os fortes inventaram Deus, Pátria e Família e deixaram para os fracos o papel de fiéis, soldados e filhos. Num mundo assim, Deus só pode viver oculto. Não o inventes, descobre-o. Não se vê: é gratuidade pura. Está precisamente no lado oposto ao que ocupas neste momento a ganhar a vida.

6 - Perguntas o que é a teologia? Diante de uma foto premiada de um menino de África, a teologia é a ciência que explica a relação entre as moscas poisadas no rosto do menino, o clarão baço dos seus olhos que não assusta as moscas, a habilidade, a técnica e a contenção do fotógrafo que não treme nem mão nem alma, a neutralidade do júri que premiou a foto e o inútil sarcasmo que esta definição consagra.

7 - Ainda bem que o Deus de que falais está morto. Abençoado ateísmo esse, dado que contribui para a purificação da noção de Deus: despidos desses adereços (omnipotências, omnisciências e quejandos títulos de déspotas) com que as religiões mascaram suas incompetências dialécticas, podemos mais leves abordar o Mistério e nomeá-lo com palavras gratuitas de criança - Pai, Mãe, Amor.

8 - O mito bíblico da criação dá conta de um contrato entre o Deus e o homem. E disse Deus: em seis dias fiz-te a papa toda até ao fim dos tempos; já descansei o que tinha a descansar e agora só volto no fim. No fim?!… - perguntou espantado o homem – eu julgava que isto não tinha fim. Disse Deus de novo: está previsto um fim nos meus planos, mas se quiseres ter a trabalheira de os rever, podes fazê-lo a todo o tempo - basta que comas o fruto da árvore da sabedoria. O homem comeu: foi "com sciência" que abandonou o Paraíso. Será por isso que tenta lá voltar "com inocência"?

9 - Claro que Deus é fiel. E poderá, por isso, ter de ceder aos efeitos do medo que o homem inventou para guardar a vinha. Queira Deus livrar-se de um homem com medo...

10 - Deus é Amor. E  para o amor não há estádios intermédios: o máximo é dar a vida e o mínimo é enfrentar a morte - cada um a sua, não a dos outros. Apesar  da tradição judaico-cristã propor a imagem do pai para abordar Deus, eu prefiro olhar para a mãe (o modelo é a minha que já habita o além) como garante da fidelidade do criador ao ente criado. A mãe é o futuro de Deus presente. A mãe, essa “maravilhosa invenção dos filhos”, na palavra de Herberto Hélder, poeta português, é uma permanente e gratuita dádiva de amor que se dói com os desvios sucessivos do filho, mas se entrega com uma louca fidelidade a acolhê-lo permanentemente no seu seio. Esta realidade da mãe é a que eu proponho aos homens para procurarem a realidade de Deus. Esqueçam tudo o que de Deus se diz menos isto: é Amor.

11- A primeira atitude de uma razão sã que aborda o conhecimento de Deus é reconhecer a sua ausência. A partir desta constatação, os "mecânicos do espírito" ficam sem possibilidade de demonstração. Aliás, o crente prova Deus, saboreando-O. Mas diante do esforço que muitos fazem para demonstrar a não existência de Deus, confesso que é sempre com muito prazer que eu reforço minha convicção na existência da singularidade do Ser ao verificar que há seres preocupados em demonstrar a existência de um modelo de Não-Ser. Eu sei que é difícil acreditar no Deus que a sociedade e as instituições impõem, mas dêem ao menos o "benefício da dúvida" ao Deus que habita nos corações que O saboreiam.

12 - É fácil de compreender a aparente contradição do ateu que afirma que o é graças a Deus. O que o ateu afirma é que Deus é a ausência mais real que há.

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