LICEU NACIONAL DE LEIRIA E OS SEUS PROFESSORES – 1966.

O Dr. Hernni e o Dr. João Lamas .  

A Júlia Moniz, autora do livro
 Dádiva, Jorlis - Edições e Publicações, Lda,
 Leiria, Abril de 1998, foi minha aluna em 1966, no Liceu de Leiria.

Babado, pedi-lhe autorização para colocar
nesta página o que ela sobre mim escreveu,
nas páginas 103 a 106.

Só uma pequena correcção: saí de Leiria para
Toulouse e não para a Sorbonne
Mais um grande beijo, Júlia.
 

[...]

Num espaçoso café de Leiria, mesas juntas formavam um rectângulo com um professor ao topo da mesa rodeada de pequenotes dos seus 12 a 13 anos. Olhei para a magna reunião e ressaltaram-me à  vista garrafas de Coca-Cola, palhinhas e a voz do professor que se confundia com a dos alunos que falavam em uníssono. Por mais que eu tentasse escutar nem uma palavra "catrapisquei". Associei a cena ao filme "Clube dos Poetas Mortos" e reportei-me a trinta anos atrás, ao Liceu Nacional de Leiria. O professor era parecido com este. Era jovem e falador e ia ao encontro dos gostos dos jovens que rodam agora os cinquenta anos. Tive a honra de ser sua aluna bem como o Dr. Victor Faria, prestigiado advogado de Leiria, o Dr. Victor Franco, delegado do Ministério Público duma comarca do Distrito de Leiria, a Dra. Maria Marques Calado, professora de História de Arte, numa universidade em Lisboa e outros, mas não muitos mais, porque a turma era pequena.

- Querem hoje falar sobre o quê? - Perguntava sentado em cima do tampo de uma carteira com os pés em movimento cadenciado como se fosse um garoto traquinas da escola primária a quem o professor pedisse para cantarolar a tabuada do dois.

- Sobre namoro, sôtor, disse o futuro delegado do Ministério Público. 

- Está bem, então começa já tu a dizer o que pensas do tema! ...

- Já se passou a hora da aula e eu não dei a lição. Vão vocês prepará-la em casa. Não se esqueçam de ler sobre o feudalismo na Europa o livro... e o livro. Tenho confiança em vocês. Se lerem estes livros com atenção ficam aptos a fazer o ponto. Não me deixem ficar mal. Posso confiar?

- Oh sôtor não pode dizer mais ou menos as perguntas que vão calhar? - O professor com os olhos piscos pelos serões passados a estudar no quarto velho e mal iluminado de Coimbra que conheceu gerações de alunos. olhou com ternura para o discípulo tentador que procurava aproveitar a sua condescendência que não era senão uma atitude didáctica de grande pedagogo para ensinar aquelas cabecinhas doidas o sentido de responsabilidade que deveria pautar as suas vidas.

- Olha. tu queres saber mesmo o que vai calhar no ponto?!... E ria-se enlevado com a ingenuidade do aluno, sentindo um prazer muito grande em ensinar-lhe a verdadeira filosofia da vida.

- Vou combinar urna coisa convosco. Dou-vos o ponto de véspera e fazem-no em casa querem? Ou podem fazê-lo no dia programado e trazer os livros todos para copiarem. Deixo-vos copiar à vontade...

Oh ingénuos dezassete anos!... Bem podíamos fazer o ponto em casa ou levar todos os livros que quiséssemos para copiar. tínhamos que ter bases sólidas dadas por um estudo apurado e cuidado que não se podia fazer em duas ou três semanas.

- Então digam-me lá o ponto correu-vos bem?

- Oh, o sôtor só fez perguntas de desenvolvimento? ...

- Mas leram ou não leram os livros que eu vos aconselhei? Quem os leu, sabia responder ao que eu queria. Eu não vos enganei...

Era a segunda aula do dia. O professor entra sorridente e sentou-se de novo no tampo de uma carteira e disse:

- Tenho uma novidade para vos dizer: é a última aula que vos dou. Vou ser professor na universidade de Sorbonne. Quero que dispensem todos à oral ouviram? Não me vão envergonhar a cara pois não?

Os alunos olharam uns para os outros adivinhando cada um o pensamento do parceiro. Um não conseguiu manter a emoção e bateu com o punho na secretária.

- Pois é doutor, o bom vai-se embora. Hernani e Companhia Limitada, fica cá!... Ao Dr. Hernani. se ele fosse vivo como eu lhe haveria de pedir mil desculpas, pelo que lhe fiz. Eu um "pãozinho sem sal" e a minha pasta de sola feita no sapateiro da terra para durar sempre, fui a sua cruz e como ele tinha tanta consideração por mim!...

Um dia disse-lhe o que ninguém teve coragem para lhe dizer .

Condoída por toda a turma troçar dele porque tinha as calças rotas, esperei pelo fim da aula.

- Sôtor, venho dizer-lhe uma coisa e peço-lhe desculpa.

- O que é. rapariga?... Diz lá... Diz lá

- O sôtor não sabe porque é que todos se riem pois não? Eu vou dizer-lhe, mas não nos castigue. O sôtor tem as calças rotas entre as pernas...

- Tenho?.. que diabo, que diabo!... Como te chamas?

- Júlia.

- Obrigado Júlia... Júlia!...

Desde então o velho mestre começou a saber o meu nome. A todos chamava pelo número. mas quando se dirigia a mim chamava-me pelo meu nome. Como eu gostava que ele me dissesse:

- Júlia, continua a tradução!...

A minha sinceridade tinha granjeado a sua simpatia.

Estás triste pá... Por eu me ir embora!... Para a semana já têm outro professor que também é novo. Já vi que não gostam de professores velhos. Estou sempre ao vosso dispor e deixo-vos a minha direcção. Depois vão-me lá visitar!...

Passados trinta anos

Um homem de cabelos ondulados, de um grisalho ruivo. conversava com outros dois no antigo Café Lisea, numa mesa em cima do passeio. Uma mulher com passo apressado olha de relance e parece observar demoradamente o homem do meio que tinha entre os dedos uma esferográfica metalizada parecendo fazer um desenho no guardanapo de papel conversando em simultâneo com os dois amigos.

- Senhor Doutor Lamas, dá-me licença que o cumprimente... Os senhores desculpem a interrupção. mas tenho um gosto muito grande em cumprimentar o percursor do ensino moderno em Leiria.

Oh Júlia!... Oh Júlia!...

Foi a segunda vez que o meu nome foi pronunciado de uma forma tão enfática por pessoas tão diferentes. uma era antítese da outra. O Dr. . Hernani personificava o ensino antigo, autocrata. "magister dixit". O Dr. João Lamas era a personificação do ensino moderno aberto e liberal.

Os dois professores estão ligados aos anos mais felizes do meu tempo de estudante. Um e outro marcou significativamente os princípios pedagógicos que apliquei na educação dos meus filhos.

 

(Texto escrito para os homens e mulheres que foram adolescentes quando eu, que no exercício das mais variadas profissões são o esteio da cidade de Leiria.)

 

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