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LICEU
NACIONAL DE LEIRIA E OS SEUS PROFESSORES – 1966.
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O Dr. Hernni e o Dr. João Lamas
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A
Júlia Moniz, autora do livro |
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[...]
Num espaçoso café de Leiria, mesas
juntas formavam um rectângulo com um professor ao topo da mesa rodeada de
pequenotes dos seus 12 a 13 anos. Olhei para a magna reunião e ressaltaram-me
à vista garrafas de Coca-Cola,
palhinhas e a voz do professor que se confundia com a dos alunos que falavam em
uníssono. Por mais que eu tentasse escutar nem uma palavra
"catrapisquei". Associei a cena ao filme "Clube dos Poetas
Mortos" e reportei-me a trinta anos atrás, ao Liceu Nacional de Leiria. O
professor era parecido com este. Era jovem e falador e ia ao encontro dos gostos
dos jovens que rodam agora os cinquenta anos. Tive a honra de ser sua aluna bem
como o Dr. Victor Faria, prestigiado advogado de Leiria, o Dr. Victor Franco,
delegado do Ministério Público duma comarca do Distrito de Leiria, a Dra.
Maria Marques Calado, professora de História de Arte, numa universidade em
Lisboa e outros, mas não muitos mais, porque a turma era pequena.
- Querem hoje falar sobre o quê? -
Perguntava sentado em cima do tampo de uma carteira com os pés em movimento
cadenciado como se fosse um garoto traquinas da escola primária a quem o
professor pedisse para cantarolar a tabuada do dois.
- Sobre namoro, sôtor, disse o futuro delegado do Ministério Público.
- Está bem, então começa já tu a
dizer o que pensas do tema! ...
- Já se passou a hora da aula e eu não
dei a lição. Vão vocês prepará-la em casa. Não se esqueçam de ler sobre o
feudalismo na Europa o livro... e o livro. Tenho confiança em vocês. Se lerem
estes livros com atenção ficam aptos a fazer o ponto. Não me deixem ficar
mal. Posso confiar?
- Oh sôtor não pode dizer mais ou
menos as perguntas que vão calhar? - O professor com os olhos piscos pelos serões
passados a estudar no quarto velho e mal iluminado de Coimbra que conheceu gerações
de alunos. olhou com ternura para o discípulo tentador que procurava aproveitar
a sua condescendência que não era senão uma atitude didáctica de grande
pedagogo para ensinar aquelas cabecinhas doidas o sentido de responsabilidade
que deveria pautar as suas vidas.
- Olha. tu queres saber mesmo o que vai
calhar no ponto?!... E ria-se enlevado com a ingenuidade do aluno, sentindo um
prazer muito grande em ensinar-lhe a verdadeira filosofia da vida.
- Vou combinar urna coisa convosco.
Dou-vos o ponto de véspera e fazem-no em casa querem? Ou podem fazê-lo no dia
programado e trazer os livros todos para copiarem. Deixo-vos copiar à
vontade...
Oh ingénuos dezassete anos!... Bem podíamos
fazer o ponto em casa ou levar todos os livros que quiséssemos para copiar. tínhamos
que ter bases sólidas dadas por um estudo apurado e cuidado que não se podia
fazer em duas ou três semanas.
- Então digam-me lá o ponto
correu-vos bem?
- Oh, o sôtor só fez perguntas de
desenvolvimento? ...
- Mas leram ou não leram os livros que
eu vos aconselhei? Quem os leu, sabia responder ao que eu queria. Eu não vos
enganei...
Era a segunda aula do dia. O professor
entra sorridente e sentou-se de novo no tampo de uma carteira e disse:
- Tenho uma novidade para vos dizer: é
a última aula que vos dou. Vou ser professor na universidade de Sorbonne. Quero
que dispensem todos à oral ouviram? Não me vão envergonhar a cara pois não?
Os alunos olharam uns para os outros
adivinhando cada um o pensamento do parceiro. Um não conseguiu manter a emoção
e bateu com o punho na secretária.
- Pois é doutor, o bom vai-se embora.
Hernani e Companhia Limitada, fica cá!... Ao Dr. Hernani. se ele fosse vivo
como eu lhe haveria de pedir mil desculpas, pelo que lhe fiz. Eu um "pãozinho
sem sal" e a minha pasta de sola feita no sapateiro da terra para durar
sempre, fui a sua cruz e como ele tinha tanta consideração por mim!...
Um dia disse-lhe o que ninguém teve
coragem para lhe dizer .
Condoída por toda a turma troçar dele
porque tinha as calças rotas, esperei pelo fim da aula.
- Sôtor, venho dizer-lhe uma coisa e
peço-lhe desculpa.
- O que é. rapariga?... Diz lá... Diz
lá
- O sôtor não sabe porque é que
todos se riem pois não? Eu vou dizer-lhe, mas não nos castigue. O sôtor tem
as calças rotas entre as pernas...
- Tenho?.. que diabo, que diabo!...
Como te chamas?
- Júlia.
- Obrigado Júlia... Júlia!...
Desde então o velho mestre começou a
saber o meu nome. A todos chamava pelo número. mas quando se dirigia a mim
chamava-me pelo meu nome. Como eu gostava que ele me dissesse:
- Júlia, continua a tradução!...
A minha sinceridade tinha granjeado a
sua simpatia.
Estás
triste pá... Por
eu me ir embora!... Para a semana já têm outro professor que também é novo.
Já vi que não gostam de professores velhos. Estou sempre ao vosso dispor e
deixo-vos a minha direcção. Depois vão-me lá visitar!...
Um homem de cabelos ondulados, de um
grisalho ruivo. conversava com outros dois no antigo Café Lisea, numa mesa em
cima do passeio. Uma mulher com passo apressado olha de relance e parece
observar demoradamente o homem do meio que tinha entre os dedos uma esferográfica
metalizada parecendo fazer um desenho no guardanapo de papel conversando em
simultâneo com os dois amigos.
- Senhor Doutor Lamas, dá-me licença
que o cumprimente... Os senhores desculpem a interrupção. mas tenho um gosto
muito grande em cumprimentar o percursor do ensino moderno em Leiria.
Oh Júlia!... Oh Júlia!...
Foi a segunda vez que o meu nome foi
pronunciado de uma forma tão enfática por pessoas tão diferentes. uma era antítese
da outra. O Dr. . Hernani personificava o ensino antigo, autocrata.
"magister dixit". O Dr. João Lamas era a personificação do ensino
moderno aberto e liberal.
Os dois professores estão ligados aos
anos mais felizes do meu tempo de estudante. Um e outro marcou
significativamente os princípios pedagógicos que apliquei na educação dos
meus filhos.
(Texto escrito para os homens e mulheres que foram adolescentes quando eu, que no exercício das mais variadas profissões são o esteio da cidade de Leiria.)