Poemastro me confesso

[1 Ainda daqui vejo o mundo] [2 O Engraxador] [3 Adão e Eva] [4 Sonata] [5 Solfejo] [6 A Lição de guitarra] [7 Pão Nosso]
[8 Olha esta foto] [9 Criação sem lei][10 No enterro de um político] [11 Girassol de alibi] [12 Strip-tease] [13 Na ponte da memória]
[ 14 A diferença ] [ 15 Fronteira ] [16 Uns olhos e um rosto] [ 17 Tela nua ] [ 18 Cheguei aqui ] [ 19 Até ao fim ]


1 AINDA DAQUI VEJO O MUNDO

Por largo tempo alargo os olhos por esse largo
Eiras e milhos, panos estendidos, montes de bosta

Gaiteiro e grilos, cigarras, ralos comigo trago
Ouço-os à sombra da oliveira à minha porta

Regula o ritmo a sucessão dos meses quatro
Dia de feira, burros e bois, chinfrim de porcos

Por um tostão num púcaro de água a sede mato
Dos corpos vivos que na capela rezam por mortos

E à barra jogo as emoções de tardes quentes
E em cada estaca o medo furo de invernos frios

Ó companheiro, traz a sacola, volta ao que sentes
Alaga os regos, deixa corrê-los em largos rios

Salta no adro, roda na escola piões dormentes
Regressa a ti, criança velha, com novos brios



 

2 ENGRAXADOR

 

O pé pisa o pavimento
do burgo aburguesado
o rosto arrasta o sentimento
que assume envergonhado
outra condição
aquela que se apega ao chão
no movimento
apressado
de dar luz ao céu alastrado
no sapato que sobra
da sua mão



3 ADÃO E EVA

Eva
fruta fronteira furtava
nas árvores
soltas

Adão
sonhos sorrisos sonhava
desejos às
voltas

Tu
rasgas riscos traçados
na doce evasão
rompes as redes
nos limites sagrados do
coração



4 SONATA

Dedilham teus dedos
nos meus ouvidos uma sonata
e ouço no verniz preto distância opaca
dos lábios meus ao piano aberto
o mudo segredo dos silêncios teus no salão deserto.



5 SOLFEJO

Num movimento ternário
tua mão limita o espaço
que em meu ouvido ressoa
e no gesto recebido
como pagem imaginário
duma imagem à toa
vem e volta repetido
o som enternecido
que a tua boca entoa.



6 A LIÇÃO DE GUITARRA

Entre mi e si
esconde-se o sol
cresce meu dó
não chega lá
à ré das ruas
breve com fusa a emoção
fa la a ironia
da tua mão
que guia a minha
e a corda as duas
noutra casinha
bem pequenina
oitava abaixo da precisão
- dê-me o seu si
- dou-lhe o meu mi
oitava acima volta a ilusão
      Para quando o dia da sagração?



7 PÃO NOSSO

Pão nosso
- Teu, não é
De cada dia
- De outros, anos até
Nos dai hoje
- E amanhã, avia?
Perdoai as nossas ofensas
- Desde que amoche
Assim como nós perdoamos
- Foge, foge!
A quem nos tem ofendido
- Ah! bandido, dá cá o pão

A Deus maior glória
Ladrão que rouba a ladrão
Tem cem anos de perdão
Reza o povo e reza a história.



8 OLHA ESTA FOTO

Palavra
realidade som
ouvida fica
desfaz-se em dom
no silêncio que a justifica

imagem
realidade luz
que o tempo some
e à vida aduz
o espaço que se consome

Palavra imagem
dita olhada
nos uniu
continuada
na intimidade que ali floriu



9 CRIAÇÃO SEM LEI

Um abraço
de almas e corpos
divisos
indistintos

Um sopro no oco
de um ar diferente
que o mundo respira
finalmente
louco

A mesma lei
que dirige ninguém
e toda a gente
sem símbolos de aquém e de além

E todos filhos
contentes
por não terem pai nem mãe

Eis o poema
de vozes roucas
por serem poucas
as bocas
que o dizem bem



10 NO ENTERRO DE UM POLÍTICO

Da morte eu sei dizer
já não há nada a fazer
morreu o rei viva o rei
mas que pena acabou-se
eu sei lá quanta ternura
de quem está vivo e safou-se
e entulha a sepultura
de setenta por cento de água
mais uns pingos que baba
bem do fundo das olheiras
para regar a cultura
que inventou mil maneiras
de dizer a quem se apaga
fico eu e bem contente
acompanhado desta gente
carpindo cheio de sorte
por poder preitear a morte
só porque o morto a não sente.



11 GIRASSOL DE ALIBI

Minha lágrima desce quente
e arrefece de repente
com vergonha do que diz
arrasta risos e choros
cava a cova onde afogo
as mágoas donde parti
e a voz que canta e encanta
desagua impudica ali
ata desata e planta
e floresce na garganta
em girassol de alibi.



12 STRIP-TEASE

Passo a passo
peça a peça
uma de cada vez
não é tolice, não.
Despe até que apeteça
cobrir essa nudez desejada
com uma veste desenhada
pela carícia de uma mão.


13 NA PONTE DA MEMÓRIA

Na ponte parada da memória
entre a margem da candura e do disfarce
corre enigmáticamente plácido
o distanciado mistério.

por de trás das origens
brotam silêncios de esperança
suaves e doces
ao encontro da primeira madrugada fria.

quem desenhou a ponte onde só a solidão pára?
contornos,cores, vozes, gestos,
carícias, matizes, melopeias, movimentos,
onde se escondem ou de onde surgem?

parada na ponte
é a solidão
prisioneira da paisagem


14 A DIFERENÇA

 

Homem tem língua, falo e fala.
Mulher
tem língua e fala.
A ponta é a diferença que a natureza aponta.

Se à mulher, desatenta,
Outra
diferença a tenta
É porque é tonta!

E a diferença não é pouca.
É um feitiço!
Quem
a provoca,
bem por isso!...


15 FRONTEIRA

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo a realidade
quando caminhas no ângulo superior direito desse castelo
donde do lado de cá avistas do lado de lá
a indiferença da distância.
 

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo a realidade
de portas e janelas
alçadas na vertente do espaço e da distância
na linha exacta em que do lado de cá
isso se chama lá do lado de lá.
 

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo isso
sem feitiço.

 


 

16 UNS OLHOS E UM ROSTO

Uns olhos e um rosto
fixos no instantâneo de outros olhos e outro rosto
ambos, anos a fio, quedos no mesmo gesto e no mesmo olhar
que a magia da palavra fixou no riso aberto do primeiro encontro
e revelou até ao infinito relevos, toques, pele, luz
e o mordisco renovado na polpa intumescida
ondulada pela luz da cortina coada na brisa de gargalhadas
entre pasmos humedecidos de soluços brandos,
afogados nos impulsos de corpos confundidos,
leves, lentos, agitados, furiosos
ao ritmo da entrega, e da  placidez partilhada do regresso

aos olhos e ao rosto, quedos no mesmo gesto e no mesmo olhar

e subitamente soltos, desprendidos e alheios a um adeus imerecido.


17 TELA NUA

E seu fizesse
neste papel
o teu retrato?

Tenho a caneta
- é o pincel
é exacto
neste momento
o acto da criação.

Há os teus olhos
- é a luz
Há o teu corpo
- tela nua
na minha mão.

E na paleta
brincam as cores
da sedução.


18 CHEGUEI AQUI

Cheguei aqui a este quarto de quadros e flores atapetado
vindo da Barreira em tarde de figos que matavam fome
empurrado pela mesma cana e a mesma reentrância que colhia os frutos
e empurrava o eixo do triciclo que o Viquinho me deu partido
e o Escabelim forjou como forjou as colheres pequenas de pedreiro
com que construí as casitas iguais às que não tinha
moldadas pelas que deitavam sobre as nossas as sombras delas
e luziam como nossos sonhos de canas verdes
vergadas em corpos e asas de aviões de dois pés
e motores de lábios num frenesim de som que perseguia borboletas
e na fuga desenhavam a metamorfose dos voos em ziguezague
até aqui a este quarto de flores atapetado
morta com o Escabelim a forja da minha infância.


19 ATÉ AO FIM

No mar são tuas cores que a luz desenha
No horizonte de uma outra rota
Segui até ao fim tua façanha
Porquê tanto ocultaste teu rumo em troca?

Partias de manhã com tua dádiva
E nós na praia morna sempre aquém
Vagas que galgavas mulher impávida
Eram serenas ondas sempre mãe

E assim fugiu de mim o teu destino
Espuma branda teu corpo que não ousei
Puras águas as mágoas do meu signo
Que ao lado da tua barca naveguei

Contempla lá do alto o mar ameno
Regressa às margens estreitas do meu rio
Repousa enfim de coração sereno
E só a vela segue como eu a guio.


 

 

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