UMA PÁGINA PESSOAL

Parece estranho, mas o termo pessoa tem a ver com uma espécie de corneta pegada às máscaras dos actores da Grécia antiga que ampliavam para fora o som do rosto escondido dos personagens. Aquela gaita que em latim era per sonare acabou por dar origem ao conceito de pessoa.

O conceito carrega ainda hoje as significações das imagens de origem. Uma pessoa tem uma máscara para se esconder e uma corneta histriónica para exprimir a sua representação. Quem, ao certo, se esconde atrás de um corpo, de um gesto, de uma obra ou de uma palavra? Se quem vê caras, não vê corações, qualquer "webcam" projecta no monitor vizinho  mais outras tantas máscaras de máscaras.

Sempre escondida, a pessoa vislumbra-se - misto de charlatão, mágico e demiurgo - quando quebra o compromisso rotineiro com as convenções, salta por cima da imediata  utilidade de  interesses legítimos e, nua e gratuita,  representa  a essência egocêntrica da sua insubstituível memória emocional. 

Quem assim se assume, expõe-se a ser espectador de si mesmo. As plateias hoje não usufruem, consomem; actores e "mass media" sacrificam seus talentos no altar dos "top" e todos se treinam para ultrapassar as barreiras dos "ranks" que os "managers" avaliam nos índices das bolsas e dos bolsos. Fora do mundo de interesses tais, a assunção voluntária da gratuidade é um desaforo.

Resolvi expor meus ócios serôdios, enquanto os alojamentos gratuitos forem considerados rendíveis pelos senhores das redes. Quem sabe se um dia, um "click" inútil possa aqui aportar e a magia da graça mo devolver em forma de mensagem: - oh charlatão, mágico, demiurgo ou nada disso, ainda és entendido e, portanto, ainda vale a pena tentares fazer-te ouvir.

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