O deserto está na moda: as televisões espalham por todo o mundo carros, motos e camiões a galgar quilómetros de aridez, abrindo sulcos na pele das dunas que as tempestades de areia devolvem à maciez plácida inicial; as agências de viagem oferecem a partir da frescura do oásis, dos cimos pachorrentos das corcundas dos camelos perspectivas exóticas do que seria a natureza no momento exacto que precede a vida. Há quem pague a aventura da travessia dos areais sem fim; há quem compre a sombra turística que umas tantas palmeiras projectam nos saibros tórridos das paisagens diurnas e o frio nocturno inesperado para ver o espectáculo de um planetário natural que se desdobra na calote da noite súbita do deserto. Mas são raros os que o procuram para viver.
O deserto obriga a meditar: como é possível ao
Eterno Mistério Ausente soprar sobre as areias e fazer florir do Nada
o apelo da Vida? Ali ouv
e-se a fracção de silêncio primordial do
Criador no momento exacto em que resolveu soprar a Vida. LEIA LEGENDA DA FOTO!
Nasceram no deserto as grandes civilizações. As três grandes religiões monoteístas – judeus, cristãos e árabes — entroncam na fé do mesmo patriarca Abraão que abandonou as margens ricas de bens e de deuses do Tigre e do Eufrates para seguir a promessa de Yahvé – o estranho Deus único que propõe à descendência nómada do patriarca o desafio austero de fazer florir os desertos.
É conhecida a peripécia do povo hebreu, escravo no Egipto, liberto por Moisés, quarenta anos no deserto a caminho da Terra Prometida. Conheceram a fome e a sede — a fome de alguma coisa e a sede de alguém. Mas no deserto a superabundância é um escândalo intolerável. O sopro de Yahvé agitava as nuvens e a bênção do maná cobria pedras e areias, mas era proibido colher para além do pão nosso de cada dia; a vara que Moisés recebera do Altíssimo fazia brotar fontes dos montes secos, mas a ninguém era permitida a veleidade de saciar o desejo com a porção do próximo. Caminhada rude, rigorosa, entre os "ais" da esperança que ecoavam de duna em duna, aquela ali e outra além, até que três tufos de palha e raros arremedos de árvores de espinhos grossos convidassem ao repouso que nunca excedia o tempo do prazer supérfluo.
Ainda hoje os judeus — sobretudo os dispersos pelo mundo — se juntam para celebrar, numa refeição, a memória da saída do Egipto: sobre a mesa, um osso representa o cordeiro, um copo de vinagre e ervas amargas recordam o suor e as lágrimas do cativeiro, o pão sem fermento o alimento que basta para a jornada nómada no deserto e um ovo cozido nas cinzas para lembrar o afastamento da Terra Santa e a destruição do Templo — o que um judeu não esquece mesmo quando celebra a Festa.
Também a Páscoa dos Cristãos carrega os mesmos símbolos da vitória da vida sobre o sofrimento, a dor e a morte. Jesus precede a sua entrega pública ao projecto de construir um homem novo embrenhando-se quarenta dias e quarenta noites a viver do que o deserto dá — e já vimos que dá pouco… O projecto de Jesus faz dele um Filho do Deus Verdadeiro— um privilégio que Cristo nunca utilizou em causa própria. Na hora da morte gritou "Pai, porque me abandonaste?" E o grito do Filho do Homem resultou no Filho de Deus ressuscitado.
A Páscoa dos cristãos celebra a passagem do homem velho
ao
homem novo, de cujo trânsito a travessia do deserto a partir do
Egipto, descrita no Antigo Testamento, é a imagem telú
rica
apropriada à vida nómada.
E é igualmente apropriada à vida sedentária o pão e o vinho, símbolo do sacrifício necessário que precede a pujança renovada do corpo e a alegria do espírito e alimentam a esperança de novas colheitas prósperas que os calendários anunciam.
É aliás esta ligação aos ritmos da natureza que faz com que mil anos sejam um dia e outro dia mais mil anos.
|
Outros artigos afins: |
||||