MAPAS e METÁFORAS

 

Conservo ainda na memória o borralho baixo da casa da aldeia da minha meninice, tijolo de cambiantes negros, atravessado de veios, sulcos e ranhuras, rede aleatória de linhas e traçados deambulantes, que minha irmã aproveitava, à luz da fogueira, para orientar os passos de uma criança imaginária, que eu via, seguindo os dedos dela, sem tirar os olhos do lajedo, a percorrer caminhos, a saltar barreiras, a atravessar açudes, e a vaguear por entre bosques, riachos e fontes.

E foi assim, antes de aprender as primeiras letras, que me aculturei com os mapas, bem à maneira dos povos primitivos que, sem escrita, nunca deixaram de construir balizas topográficas a duas dimensões, suportes gráficos de suas metáforas e metonímias.

Hoje, adulto e letrado, sei que não há mapas inocentes!...

Os planisférios de hoje continuam eurocêntricos, impondo a imagem da massa continental do Velho Mundo e os espaços líquidos do Atlântico bem no centro do ecrã, à direita e à esquerda da linha zero de Greenwich, pequena cidade das margens do Tamisa, diapasão das horas do mundo, sede da Escola Naval da Inglaterra, hoje tão-só figura de estilo da expansão colonial que marcou o ritmo das revoluções industriais europeias.

 

Europa! As coordenadas físicas marcam-lhe um espaço do Atlântico aos Urales no velho continente euro-asiático, na calote rica do planeta, o Norte, berço da civilização ocidental, esse espírito europeu profundamente convicto que o mundo obedece à racionalidade, portanto entendível e dominável pela inteligência do homem, que, para os crentes, é um ajustado reflexo da Sabedoria divina, e, para os agnósticos, o sinal da superioridade do homo sapiens.

A Europa nasceu e cresceu com o cristianismo: nela se fez história a ambivalência do que é de César e do que é de Deus. É difícil encontrar um substrato civilizacional comum donde emergissem tantos aspectos contrastantes como do europeu. Contrastes de povos, línguas, culturas, hábitos, saberes, estilos, projectos, razões, mitos e sentimentos. É ver em quantos arranjos e rearranjos do mapa da Europa se reajustaram ao longo dos séculos os diversos contrastes, até aos dias de hoje, época de outros dramáticos ajustes parcelares e regionais, onde se reivindicam poderes soberanos quando parecia vencer a tendência para os ceder em beneficio do seu exercício integrado em grandes espaços políticos e económicos.

Não há dúvida, porém, que na Europa se desenvolveu um longo processo de humanização, com raízes assentes no caldo comum greco-latino e judaico-cristão das margens do Mediterrâneo. Entendida neste sentido, no mapa-múndi, a Europa consente uma linha de São Francisco a Vladivostok e, quando porventura se sonha com uma civilização planetária de liberdade, bem-estar e respeito pela pessoa humana, os contornos desse sonho assentam em grande parte nas realizações da chamada civilização ocidental que teve por berço a Europa.

Portugal é uma singularidade. Na Europa e na Península. Tem uma fronteira fruto da vontade, traçada terra adentro no ponto ideal para não esquecer o mar, e conservada intacta, há séculos, à rebeldia do sistema geográfico, desde que D. Dinis, esse estratega do Portugal a haver, começou a lavrar a terra, o mar e o espírito; equilibrou com mares nunca dantes navegados as tendências centrípetas de Castela e lançou-se na aventura colectiva louca dos Descobrimentos, gesta genial de glórias, misérias, ambições e luxo, tanto na exploração como na dádiva, cuja expressão maior é essa mestiçagem de corpos e culturas dos falantes de português no mundo; singularidade até em ser o último a conservar um império e hoje, estranho colonialista de mãos a abanar, bater à porta dos ricos da Europa que beneficiam agora do prestígio de terem sido os primeiros a descolonizar e aproveitam os benefícios de poderem ser os últimos a abandonar o neocolonialismo.

E Portugal hoje? Partiu já lá vão quinhentos anos, místico, lírico, empírico, aventureiro e regressa ao cais de partida pouco metafísico, pouco gregário, pouco pragmático, desorganizado, influenciável, imitador e... arisco como quando partira. (1)

A Portugal, atrai-o hoje a Europa. Qual? A das lágrimas de Rousseau, a dos risos de Voltaire, a do pensamento puro de Kant, mas gorda de teres e haveres?; a gregária de Jean Monnet, a pragmática de Maquiavel, a rigorosa de Calvino, mas individualista e cada vez mais xenófoba?; a da razão de Galileu, a da fé crítica de Lutero e da fé na história de Marx, mas gorda de materialismo e balofa de luxúria?

Na encruzilhada de novos desafios, como vai ser a nossa maneira de ser? A mesma identidade, dizem, com outra individualidade.

Desprezam-se os nostálgicos, ridicularizam-se os utópicos e... incensam-se os realistas. Mas haverá pior decadência do que a presente nostalgia da Europa individualista, materialista e hedonista, egocêntrica, gorda e balofa?!...

Volto às metáforas e às metonímias dos meus mapas de criança. Nostálgico, mas... do futuro!

Sim à Europa, que remédio. Não temos alternativas para assegurar o mesmo bem-estar e progresso, inserindo-nos em quaisquer outros espaços, distantes e sem qualquer complementaridade económica.

Mas a política europeia não deve secundarizar a importância estratégica das nossas relações com as culturas que abraçámos além-mar.

Colectivamente, como povo em marcha, nunca engordamos com o Ultramar. Aos poucos apagam-se ressentimentos e, pelo contrário, multiplicam-se os sinais de que podemos finalmente ser reconhecidos como uns privilegiados transitários dos entendimentos que tardam para que entre o Norte e Sul se estabeleça o equilíbrio justo.

Por isso se impõe o esforço político, sem olhar aos imediatos dividendos económicos, para manter a presença cultural de Portugal nos pontos que foram etapa da nossa aventura e deverão agora ser pontos vivos da saudade cultural do nosso regresso. É fácil determinar os lugares: sigamos as rotas de um velho atlas português.

E Pessoa:

A Europa jaz ...

De Oriente a Ocidente jaz, fitando

.....

O rosto com que fita é Portugal.

 

(1) Trata-se de uma paráfrase de ideias, colhidas na leitura de ANTUNES, Manuel, Repensar Portugal, especialmente pág. 18.[Voltar]

Fim

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