A memória tornara-se uma obsessão.
Semicerrara os olhos. Rodopiavam espaços, caminhos, regueiras, árvores, manchas de relva.
Fixo-o junto de um tufo de juncos à borda de uma poça de água, cercado de outros ganapos como ele, de cócoras, as mãos entrelaçadas, dedos por entre dedos, desenhando curvas, carícias e pressões, cujo significado íntimo apenas se poderia adivinhar diverso nas variações de luz de cada rosto.
Ele inventara o jogo: imitar os pais a lavar as mãos.
Preparara o sabão, uma longa tira de barro, e ao jeito de merceeiro, uma mão no cabo, outra na ponta do facalhão que talhara de uma cana grossa, distribuiu pelos companheiros o sabão vermelho. Tão perfeito fora o gesto que o Tó Minão lembrou a perícia da Ti Mabília, no balcão da loja, a separar as grandes barras de sabão amarelo em tantos bocados e tamanhos quantos os pedidos e as posses.
O Zé do Inocêncio não precisou de empastar as mãos. Com uma nesga de barro esfregou ao de leve duas ou três falangetas, imprimiu aos dedos uma movimentação frenética, retirou-os lesto da água e sacudiu as mãos ao nível dos olhos como se estivesse a apreciar os últimos estertores de um passarinho. Ainda esboçou o propósito de se limpar à fralda da camisa do companheiro do lado, mas recuou, sem azedume e com naturalidade, ao ouvir "tira daí as gadunhas".
O Zé do Inocêncio não tinha gadunhas. Era um mãos-de-padre, calaceiro, mas espertalhão, exímio na arte de aproveitar os frutos, sem ter de partilhar os incómodos da colheita. Piscou o olho ao primo que lhe conhecia a vocação de cuco e o apanhara naquele dia a rondar as costelas para ver se havia nelas pássaros prontos a depenar, chamuscar, fritar, e comer, sem cortar as mãos nos canoilos à procura dos bichos do milho, atá-los ao pingarelho das costelas, armá-las e sujeitar-se a tantas outras canseiras necessárias para ludibriar a astúcia dos pardais.
O Zé, pouco dado a esforços, imitara com perfeição o pai a lavar as mãos. Era filho de Inocêncio, o alfaiate. Não sujava sequer a ponta dos dedos, aliás, dois deles, o polegar e o indicador, humedecia-os centenas de vezes para adelgaçar a ponta da linha, enfiá-la na agulha, facilitar o nó na ponta do alinhavo e arrematar o conjunto com os dentes, também especializados em lançar em movimento, entre língua, lábios e céu-da-boca, as excrescências inúteis de linha, qual entretém precursor da moderna pastilha elástica.
Diferente foi a tarefa do Tonho Louro. Desprezou o sabão. "Meu pai diz que sabão é mal empregado para lavar as mãos. Basta auga e areia. Sabão, sabão, só do amarelo para o soalho e do azul para a roupa e não é todos os dias. Se eu sujo a roupa e entro em casa com os pés enlameados levo logo no toutiço. Sabão é luxo de ricos".
O Tonho Louro dizia estas coisas, sério como um homem. Ainda tenras eram porém as suas mãos de criança. Imitou também o pai com perfeição. Triturou entre as mãos um grande pedaço de areia. Quando as retirou e as sacudiu vinham vermelhas, vergastadas pela pressão do saibro contra a pele tenra. "As do meu pai entram pretas de resina e estrume e saem cobre areado". O Tonho Loiro dizia estas coisas sério como um homem. Suas mãos tenras doridas eram ali a primeira homenagem às mãos calejadas do seu pai.
O Elias teve de se ajoelhar para proceder ao seu cerimonial do lava mãos. Dos joelhos para cima arredondava-se até à cabeça, gordo e anafado, de forma que as canetas, tornozelos e pés não eram bases de apoio suficientes para manter, de cócoras, a dorna do corpo e ainda por cima manter as mãos livres para imitar a lavagem.
Havia no rosto de todos um não sei quê de contentamento tácito por vê-lo ajoelhado diante de cada um deles. Compreende-se: o pai era o dono da mercearia mais recheada e da taberna com melhores pipas, explorava o jogo de tabuleiros e malhas coberto pelas melhores sombras, dispunha de mais mesas e mais baralhos, era também proprietário da única padaria das redondezas, enfim, não havia por ali outro agiota de hipotecas e fiados que lhe fizesse sombra.
Os companheiros não tiravam os olhos do Elias. Os rostos iluminavam a cena, temperada de malícia e curiosidade. Malícia, porque não era todos os dias que pobres e remediados viam ajoelhada a seus pés uma rica bola de enxúndia; quanto à curiosidade, não era tanto em saber como o pai lavava as mãos, mas em como as limpava às notas de cem...
Afinal houve apenas gozo. O Elias, apesar de ter atapetado o chão com um tufo de juncos para lhe afidalgar a postura de joelhos, resolveu abandonar o genuflexório. Faltaram-lhe os apoios, cedeu um dos braços à desproporção das carnes que lhe arredondavam o tronco e... zás-trás catrapus, de borco dentro da poça, fazendo esguichar a pouca água em redor. Levantaram-se todos à uma: "Grande porco. Estás mesmo pronto para a matança. Rebola-te na pocilga, anda".
"Qual rebola, nem meio rebola. Vai mas é para casa e a criada da mãezinha que o lave. Já viste que ficámos sem água?!...". O Elias saiu-se com uma piada vingativa: "Podem continuar que eu mijo na poça." "Olha, olha!... Tu não sabes mijar na rua. Lá em casa, talvez, mas porque alguém te segura o penico." E o Elias abandonou a cena com esta troca de mimos.
O Caril quando viu que lhe faltava a água para imitar o pai ficou descorçoado. Ele que antegozara o efeito de poisar o chicote de punho de prata lavrada, tirar as luvas brancas, despir a casaca de asas de grilo e mergulhar na água as mãos com gestos de senhor, rápido, apenas uma vez, para as limpar, então sem pressas, nos linhos alvos do palácio.
Era assim vestido a rigor que o pai do Caril atravessava a aldeia, de Condeixa à Aventosa, mestre e senhor dos arreios dourados de uma parelha de cavalos e éguas, às vezes duas, conforme a charrete e o número de senhoras e meninas, que pela manhã partiam e à tarde regressavam ao Palácio da vila. O pai era o cocheiro da Senhora Dona Elsa.
Mas Ti António só era fidalgo nas horas de ofício. Lusco-fusco, regressava a casa e ainda ia à horta colher uma braçada de couves para a janta ou peneirar uma maquia de farinha para a papa la-berça. O Caril sabia que ao evocar os adereços da fidalguia não ofendia a raiz telúrica que os irmanava a todos. Pelo contrário: ao Caril faltou a água para mimar o pai; mas sobrou-lhe a solidariedade dos companheiros, em coro, com a melopeia dos guizos por entre o compasso ritmado do trote dos cavalos palacianos.
Entardecia. Vozes de mulher, nas soleiras das portas, cobriam as distâncias de um mesmo aviso: "são horas!...".
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— Então, não vens para a mesa. Não me digas que agora na reforma precisas de uma hora para lavar as mãos.
João, o reformado, estava absorto, diante duma torneira a correr na casa de banho espelhada, num andar alto de um prédio burguês da capital. Despertou-o a mulher e o filho que o esperavam para a rotina de mais uma refeição urbana.
Fora ele que inventara o jogo do lava mãos, na aldeia onde nascera.
O reformado olhou o espelho embaciado por meio século de saudades. Com a sua mão direita agarrou a mão direita que o espelho lhe estendia: "A sua bênção, meu pai".
E uma mão sapuda inebriou-lhe os lábios com a suavidade de um cair de tarde longo: "A minha bênção, meu filho."