ITINERÁRIO DE UM FUNCIONÁRIO PÚBLICO
AO ABRIGO DO MANTO DIÁFONO DE EÇA DE QUEIROZ
PR(E/O)TE(X/S)TO

 

Seguem-se alguns textos escritos em 1984. Já lá vão dezassete anos!  É uma reflexão-desabafo sobre o sector público administrativo, a partir da experiência vivida então no subsector da cultura, educação e ensino. 

Estará desactualizado? Acho que não, nem Eça, nem eu. Bem entendido, há referências situadas e nomenclaturas caídas em desuso, mas a "ecologia administrativa" é a mesma e a raiz das frustrações dos "actores" de hoje igual. É claro que as novas tecnologias enxameiam as salas de trabalho: circula a informação, circulam as anedotas e... já não são necessários os baralhos de cartas para jogar às ditas.

Também é verdade que não há uma só Administração Pública. Fui militar (de soldado a tenente), professor, bolseiro e técnico superior da administração pública. Em sentido lato nunca fui outra coisa senão "funcionário público", isto é, e para ser mais preciso e sincero, nunca ganhei um tostão que não viesse com regularidade duodecimal do bolso dos contribuintes para o meu. Mas só me senti aranha e mosca da teia burocrática durante 20 anos, de 1974 a 1994.

Sei o que é o tacho: aconchega o estômago e amolece o engenho. Resesti e barafustei e desesti, frustrado, após 36:00:00 (anos:meses:dias). Sou um aposentado por inteiro. Nada mau: sopas, descanso e até, vejam lá, a internet para levar o desabafo pelo universo fora... É o que vale ser casado com comunhão de bens com uma funcionária pública...

Ainda me sobra ilusão para propor aos cibernautas pacientes este e outros escritos assumidos na primeira pessoa do singular. Os curricula sossobram sob o peso dos teres e haveres nas trocas e baldrocas dos interesses. O meu curriculum [Leia, se ainda não leu ] tem outro propósito: não sou candidato a nada. É caminho percorrido, não uma tabela de fasquias a ultrapassar. É um carreiro, não uma carreira, pedaços de vida tecidos de ser que nada devem, nem nunca deveram, aos critérios dos haveres.


 Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes é uma salvação e em política!... constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.

Eça de Queiroz, uma Campanha Alegre.


E o País em que se emprega? - Nas secretarias. São salas onde homens tristes escrevem em papel almaço Ilmo. e Exmº Sr. - para poderem jantar, e ter este acesso: aos 20 anos semi-inúteis, aos 30 inúteis, e aos 45 inúteis e semi.

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre.

 


Não é uma existência, é uma expiação.
E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: O país está perdido. Ninguém se iluda. Diz-se nos Conselhos de Ministros e nas estalagens. E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o País está desorganizado - e pede-se conhaque!
Assim, todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão.

Eça de Queiroz, uma Campanha Alegre.


A - Quer ordem, economia e moralidade.
B - Queixa-se de que não há economia nem moralidade, o que ele receia muito que venha a prejudicar a ordem.
C - Diz que a ordem não se pode manter por mais tempo, porque ele nota que começa a faltar a moralidade e a economia.
D  - Observa que no estado em que ele vê a economia e a moralidade, lhe parece poder asseverar que será mantida a ordem.

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre.

 


Aqui estamos pois diante de ti, mundo oficial, constitucional, burguês, doutrinário e grave!
Não sabemos se a mão que vamos abrir está ou não cheia de verdades. Sabemos que está cheia de negativas.
Não sabemos, talvez, onde se deve ir; sabemos de certo onde se não deve estar.
Catão, com Pompeu e César à vista, sabia de quem havia de fugir, mas não sabia para onde. Temos esta meia ciência de Catão.
Donde vimos? Para onde vamos? Podemos apenas responder:
Vimos donde vós estais, vamos para onde vós não estiverdes.

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre


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