Tópicos para abordagem do problema
QUEM não se apercebe da contradição entre a intenção dos programas escolares prepararem para a vida activa e a realidade da escola, de costas voltadas para o mundo do trabalho? Todos. E as críticas, unânimes neste ponto, polarizam-se à volta de duas vertentes deste problema: uma relacionada com os programas de estudo, que deveriam reservar uma maior fatia aos trabalhos práticos, outra, de ordem organizacional, que aponta às organizações públicas e privadas, desde o Estado à Família, a necessidade de estabelecer relações mais estreitas entre a escola e a comunidade de onde emerge e se insere.
O desiderato da escola - preparar para a vida - compreende significações diversas, tantas quantas as perspectivas em que se desdobram os objectivos do sistema de ensino, nem sempre fáceis de compatibilizar entre si. De facto, é difícil à escola, sempre e ao mesmo tempo, inculcar certas formas de disciplina e de trabalho nos adolescentes, dar-lhes habilitação suficiente para se ajustarem à procura de mão de obra qualificada e, ainda, eliminar as barreiras que as desigualdades de classe e de sexo teimam em impor.
É conveniente que os parceiros sociais envolvidos no processo educativo reconheçam que multas das dificuldades que os adolescentes encontram na vida activa são exteriores ao sistema de ensino e têm a ver com a família, o ambiente e as estruturas económicas. Aliás, uma das principais cautelas dos decisores em política educacional será precisamente a de não alimentar nos alunos a esperança de que a escola resolverá todas as suas dificuldades de primeiro emprego para lhes não sobrarem razões para a decepção que o sistema de ensino provoca.
Importa reflectir igualmente num outro paradoxo que envolve a problemática ensino/vida activa: cada vez se pede mais à escola melhor preparação para o mundo do trabalho, mas cada vez mais o trabalho ocupa menos tempo da vida activa. É neste contexto que deverá ser repensada a política de ocupação dos tempos livres, tantas vezes concebida em sentido restrito como solução moralizante contra a lassidão dissolvente dos chamados tempos mortos ou o lazer dilatado das férias grandes e que, orientada deste modo, apenas beneficia a fatia de adolescentes que já têm o privilégio de permanecer no sistema de ensino, aparecendo a formação profissional como a solução para os que se propõem atingir tão só a escolaridade mínima obrigatória ou para os que abandonam ensino no decurso da sua preparação académica, como se no mundo do trabalho não houvesse lugar para os tempos livres...
Os jovens não esgotam as suas opções de actividade entre escola e trabalho; cresce, ao contrário, cada vez mais a porção dos que, sem engrossarem o número dos delinquentes, escolhem deliberadamente multivariadas possibilidade de ocasião, às vezes sob a forma de trabalho dito clandestino que a economia paralela gera (está por fazer um estudo aprofundado sobre as potencialidades socioeconómicas do mercado negro em Portugal)
Os jovens querem tempo livre. Mais: exigem tempo livre. E não é livre o tempo dos engarrafamentos de trânsito, o das bichas nas cantinas, as viagens através da cidade, saltando de sala em sala dispersas por edifícios a quilómetros uns dos outros. Nem são tão livres como se supõe à primeira vista os tempos "oferecidos" pelas organizações de ocupação do lazer preocupadas com o mau conselho da preguiça... São livres os tempos que cada um dispõe como quer, onde cada qual se dedica a concretizar os projectos que a sua criatividade reclama, livres, enfim, os tempos da expressão da solidariedade social voluntariamente assumida.
Convém, portanto, não perder de vista, dentro das considerações antes evocadas, que o sistema de ensino não pode canalizar todos os seus recursos para responder à pressão imediata da procura e mão de obra, mas responde também e principalmente, hoje e no futuro, a missões sociais mais amplas.
No entanto, é inegável que o problema número um à volta do sistema de ensino é o do divórcio escola-vida, causador de um mal-estar social dissolvido no meio dos parceiros directa ou indirectamente envolvidos no processo educativo.
Entendemos que muito do mal-estar se dissiparia com a organização de serviços de orientação profissional eficientes. E neste sector há também que contemplar duas vertentes: a primeira, no sentido tradicional de orientar aptidões específicas para actividades determinadas; a segunda, de importância e necessidade crescentes, qual seja a de fornecer informação actualizada sobre a constante mutação do mundo do trabalho e proporcionar a preparação psicotécnica que a rotatividade rápida de empregos e funções impõe hoje.
A orientação profissional assim concebida pressupõe soluções audazes de coordenação de serviços, por um lado; aponta, por outro, para que a pedagogia se encaminhe para a prática da procura autónoma de informação e sua utilização crítica; exige, igualmente, uma atenção cuidada às linhas evolutivas das transformações sociais a médio e a longo prazo para que informação a fornecer se não confine à conjuntura, mas possa responder a necessidades estruturais da sociedade portuguesa.
Deve caber inteiramente ao sector da Educação e Cultura a responsabilidade de articular a formação geral e a formação profissional, a formação técnica e a formação de gestão, a formação inicial e a formação contínua, permanente e/ou alternante, através de imaginosas, diversificadas e abrangentes soluções que tenham em conta a imbricação das diferentes estruturas e esquemas de formação socioeducativa e cultural.
As soluções passam pela consideração de alguns pontos atrás focados e podem sistematizar-se ao longo das seguintes variáveis, que não se esgotam com as medidas assinaladas:
Medidas organizativas:
- Efectiva descentralização das decisões. O que puder ser resolvido pela unidade mais periférica não deverá ser feito pela unidade mais central.
- Alargar o horizonte de estabilidade de recursos humanos e materiais para cada escola poder programar a sua actividade a médio prazo.
- Ampla autonomia das escolas para organizarem a sua actividade pedagógica em relação com a comunidade em que se inserem.
- Esquemas de participação de professores, alunos, pais, agentes económicos na organização e gestão da actividade escolar.
- Maximização dos meios de informática, vídeo e TV como media privilegiados de ensino programado e à distância.
Medidas de reforma pedagógica e de formação de professores:
- Traçar perfis culturais mínimos a atingir no fim da escolaridade obrigatória e do ensino secundário que habilitem os alunos mais a formular perguntas do que a propagandear respostas.
- Renovar e ajustar programas e preparar material de apoio para satisfazer os perfis definidos.
- Dignificar a carreira docente através do recrutamento exigente dos profissionais de ensino e garantir-lhes as condições de auto-valorização permanente e acesso fácil a programas de reciclagem.
Medidas de incentivo e protecção social de discentes:
- Bolsas, contratos-crédito de formação com contrapartidas úteis para a comunidade nacional ou regional.
- Negociar entre parceiros sociais a substituição de horas de trabalho por horas de formação.
Medidas de desburocratização, de incentivo e apoio a iniciativas públicas e privadas que facilitem a inserção da escola na activa:
- Mais estágios práticos.
- Visitas de observação de empresas (um ou dois dias de visita para acompanhar a laboração desde o input ao output).
- Programas de trabalho simulado. - Ensino geminado.
- Adaptação à realidade portuguesa de experiências estrangeiras: Workexperience, Work Start, Sehnupperlebre.
- Incentivar, acompanhar e avaliar experiências piloto de alternância formação-escola, escola-formação e generalização progressiva deste modelo, tendo em conta os estágios de desenvolvimento regional do país.
A evocação destes tópicos soa ao já muito dito e ouvido. De facto, em Portugal não se peca por falta de diagnósticos. O que está por estudar em Portugal é a sociologia da indecisão: porque é que se não fez, não faz e cresce a desmotivação para fazer.
Esgravatando aí talvez fôssemos esbarrar com o verdadeiro triângulo de ferro que sustenta a "tirania do status quo", os políticos, os burocratas e os protegidos do Estado.
Fim
Outra colaboração :
Razão e Paixão
Casa Pia e Defesa Nacional
Sentir Portugal
Testemunho
Mapas e Metáforas