TESTEMUNHO

Publicado na Revista de Segurança e Defesa Nacional, da Associação de Auditores de Defesa Nacional, Dezembro de 1992

1 Não parecem ser muitos os que ligam hoje o termo testemunho ao termo pedra. No entanto, na visão cultural judaicocristã que é a nossa, o compromisso fundamental, a Aliança, em pedra foi gravado; de pedra era o primeiro Templo e o segundo, ambos sob o testemunho da mesma pedra angular; Pedro, primeira testemunha da divinização do Homem, foi feito pedra por Cristo, também Ele pedra mestre e pedra de escândalo; dureza e duração consubstanciam a prioridade absoluta do mundo sobre o homem para quem o testemunho último da magia plástica ainda é de pedra... filosofal.

2 Pede-me o amigo Mário Miranda umas palavras para a revista da Associação de Auditores com os Cursos de Defesa Nacional. E i-las, em forma de testemunho... Quem as quiser ler, não se esqueça de cruzar os signos, significados e significantes do primeiro parágrafo. Até a sabedoria popular lembra que as pedras da calçada se levantam diante de equívocos insuportáveis.

3 Ouvi falar pela primeira vez nos cursos de auditores de defesa nacional através do telefonema de quem me anunciava a sua intenção de apontar o meu nome para frequentar o IDN. Interroguei surpreso: auditor de defesa nacional, o que é isso? O meu subordinante parece ter ficado tão admirado com a minha ignorância, quanto eu com a proposta. Falou-me do alto nível do curso, do prestígio em frequentá-lo, do nível estratégico táctico operacional requerido pelo perfil que orientava os convites, e também me gratificou o ego, dado o privilégio da escolha, apesar de não ter os empenhos e os sopros dos preteridos. Cheguei a duvidar da minha preparação para tanta excelência. Mas o detentor do poder tranquilizou-me: "Para frequentar o curso, basta o seu espírito crítico e, esse, não lhe falta..." E lá fui com o tal espírito crítico, esse que não me falta, mas tantas vezes me sobra.

4 O curso foi uma agradável surpresa. A organização cuidada e o apoio logístico oportuno do Instituto de Defesa Nacional permitem aos auditores e conferencistas índices de aprendizagem, debate, trabalhos de grupo e viagens de estudo pouco habituais entre nós. A complementaridade de saberes e experiências dos participantes gera entre todos o respeito tácito pelas idiossincrasias individuais, mas facilita também a eclosão de empatias de grupo, a base de formas de solidariedade que perduram para além curso.

5 É difícil, ao mesmo tempo, ser sucinto e claro para sintetizar os nove meses passados no Instituto. Vou tentar. Trata-se de uma grande revisão geral de Portugal, observado do patamar estratégico-institucional, pressuposto metodológico da preparação de decisores ou conselheiros de decisão, cujo modo de actuação implique relacionamentos institucionais amplos, períodos de maturação a longo prazo, antecipação das acções coerentes e consistentes com os objectivos permanentes e actuais de Portugal.

6 Neste sentido, o curso proporciona aos quadros superiores da administração pública, privada e militar, uma análise transdisciplinar do país e povo que somos, das suas potencialidades e vulnerabilidades, materiais, espirituais e anímicas e prepara os auditores para serem agentes e intérpretes de um conceito de defesa nacional que se não reduza ao papel único e específico das Forças Armadas e de Segurança.

7 Aliás, um dos objectivos dos Cursos de Defesa Nacional é o de contrariar a tendência para reduzir o conceito de defesa ao papel das forças militares e militarizadas. Essa redução é potencialmente perigosa, porque é fácil, durante um longo e previsível período de paz, espalhar-se a ideia da inutilidade de um sistema militar de defesa, atitude que pode viciar o relacionamento entre as Forças Armadas e a sociedade civil de onde emanam. Ora um povo que julga que não tem a necessidade de sustentar a existência de umas Forças Armadas que garantam a capacidade autónoma de defesa do seu país, o controlo e a vigilância do seu território e do seu espaço geopolítico, é um povo potencialmente em perigo de vida.

8 O radical empenhamento ético e político a que conduz a experiência de pertença à tradição viva de Portugal em marcha para o futuro, faz parte da vida dos afectos. Mas os sentimentos não dispensam nem a razão, nem as razões. A formação de um auditor reclama, por isso, a investigação pluridisciplinar do significado do sentimento nacional e o concurso de um corpo de especialistas nas áreas das ciências exactas e humanas, cientistas, políticos, antropólogos, sociólogos linguistas e tudo o mais que possa caber no etc. ...

9. Não possuo dados para saber quanto custa a formação de um auditor. Aplicando com rigor os métodos da contabilidade analítica, cada um deve custar ao Estado mais de três mil contos, a preços actuais. É muito dinheiro. É de esperar, portanto, que a escolha de um candidato para frequentar o curso obedeça a critérios estritamente gestionários e que a avaliação dos vários cursos meça não apenas a eficácia pedagógica e didáctica do Instituto da Defesa Nacional e o empenhamento pessoal do auditor durante o período de formação, mas a eficiência do sistema em relação ao nível decisório em que se encontra ou venha a encontrar o auditor, cujo perfil profissional teórico desenha as mais altas responsabilidades na direcção da coisa pública, privada ou militar.

10 De facto, custa acreditar que se gaste tanto dinheiro para custear a figura do arabesco lateral de Peter e proporcionar no emprego, a quem quer que seja, uma prateleira sabática decorada de prestígio; ou para oferecer a jóia de entrada num clube de "bons contactos", bem cotados no mercado das influências; ou para premiar a fidelidade funcional de "sim, senhores ministros" com uns meses de apuro intelectual, intermeados de almoços e jantares e programas de turismo cultural de luxo, no país e no estrangeiro; ou tão simplesmente fechar com chave de ouro a última prestação activa do funcionário, antes de o passar à reforma, à disponibilidade ou... ao quadro de excedentes.

11 Ironia só? Se os critérios de selecção para frequentar o curso de auditores de defesa nacional fossem tão rigorosos quanto o aqui sugerido, provavelmente não teria a oportunidade de o frequentar. Ironia das ironias... A postura ética dos testemunhos de pedra ergue-se contra os próprios privilégios. Foi por isso que o Cristo resistiu até à morte à tentação de utilizar em proveito próprio o seu poder... divino.

Fim

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