CASA PIA E DEFESA NACIONAL

DURANTE o ano escolar de 1989/90, de Novembro a Julho, frequentei no Instituto da Defesa Nacional, um curso sobre uma matéria única: Portugal.

Esta afirmação, assim dita, seca e sem comentários, nada ou pouco informa sobre o conteúdo do curso, e, deixa o leitor sem qualquer referência teórica quanto ao sistema pedagógico - didáctico que o estrutura. E eu devo confessar o grande embaraço em que estou metido : por um lado, custa-me reduzir Portugal à condição de fenómeno, isto é, a coisa racionalmente explicável, por exemplo, do ponto de vista geográfico - histórico - económico - sociológico - psicológico, etc., (e assim sucede neste curso em que Portugal também se estuda do ponto de vista do etc.), e, por outro, igualmente me custa dar a ideia de que o curso peque por excesso de abrangência e interdisciplinaridade e não possa, por isso, atingir (como atinge), o grau de especificidade bastante para justificar a pretensão assumida de conceder um diploma de formação especializada, o diploma de Auditor de Defesa Nacional.

E com esta explicação receio bem ter-me metido em redobrados escolhos: anuncio com alguma dose de cabotinice que possuo uma valência específica em matéria de defesa nacional, aceito, nessa qualidade, redigir umas notas para esta Revista e ouso tentar explicar que há uma relação de empatia pedagógico - didáctica entre a actividade dos Cursos de Defesa Nacional e uma visita à Casa Pia de Lisboa.

Tentemos pois a explicação por meio de aproximações labirínticas.

Normalmente, associa-se de imediato ao conceito de defesa nacional o de defesa militar. De facto, a expressão "defesa nacional" evoca a organização, recrutamento, equipamento, manutenção, renovação e treino das Forças Armadas, as de terra, água e ar, às quais, por efeito de analogia instrumental e institucional, o cidadão comum acrescenta também todas as instituições encarregadas pelo Estado de exercer o monopólio legítimo da força, as chamadas forças de segurança interna, encarregadas da protecção de pessoas e bens.

O principal objectivo pedagógico dos Cursos de Defesa Nacional e o de contrariar a tendência para reduzir o conceito de defesa à noção atrás exposta, e, sobretudo, à missão única das Forças Armadas, Exército, Marinha de Guerra e Força Aérea, vistas como preparadas para obstar a uma agressão externa que ninguém vislumbra.

Este conceito é não só redutor, mas até potencialmente vicioso, porque é fácil, durante um longo e previsível período de paz, criar o clima propício para sustentar a ideia da inutilidade de um sistema de defesa. Tal clima transforma-se na mais séria ameaça à identidade e individualidade de uma Pátria, Nação ou Estado: um povo que julga que não tem a necessidade de se defender está ameaçado de morte.

Mas defender o quê ? Como estamos a falar de defesa nacional, à pergunta "defender o quê ?" parece óbvio que os portugueses respondam "Portugal".

Portugal é o nome dado pelos portugueses ao seu projecto colectivo, quer dizer, é algo que os portugueses vêm fazendo juntos. Portugal é a razão de ser dos portugueses, é a tarefa histórica e historizante que os identifica e, por tanto, os distingue de outros povos com projectos vitais diferentes.
A defesa da identidade nacional é um objectivo permanente, actual e estruturante do futuro de Portugal.

Portugal é uma maneira diferente de ser gente. Porém, a sua individualidade assenta no chão que ocupa, curiosamente mais água do que terra, e depende do poder material e espiritual que os portugueses possam reunir para dar credibilidade à expressão Aqui é Portugal.
A defesa do território é outro objectivo permanente actual e estruturante do futuro de Portugal.

Portugal é um dos mais velhos projectos nacionais do mundo: o Aqui e o Agora dos portugueses tem de ser fiel às suas responsabilidades históricas. É fácil ouvir os apelos de quem as reclama: os gritos e as preces exprimem-se em português língua que espalhamos pelo mundo por termos sabido responder um dia à utopia mobilizadora do Além.
É por isso que a defesa e difusão da língua e cultura portuguesas é outro objectivo permanente, actual e estruturante do futuro de Portugal.

É Portugal uma Nação, onde, desde o início se testemunha a presença de um corpo permanente de pessoas que apesar de muitos erros, desvios, omissões, prepotências e contradições, souberam recolher e transmitir os saberes nossos, sistematizar os interesses gerais e reduzi-los na noção de Estado, ler o passado para prever o futuro, enfim, pessoas que fizeram, sonharam, imaginaram, inventaram e registaram o património cultural que é nosso, testemunho dos acertos e dos erros, das misérias e grandezas, dos sonhos achados e das ilusões a haver.
A defesa e preservação do património cultural é igualmente um objectivo permanente, actual e estruturante do nosso futuro colectivo.

Imaginemos apenas por hipótese de trabalho que este discurso, escrito em língua portuguesa por um português sobre Portugal, tem algum mérito intrínseco. Imaginemos, repito. Nem mesmo assim a sua leitura deixará de ser motivo legítimo de escárnio e escândalo para todos os portugueses que, por culpa de outros portugueses, se sintam em Portugal sem liberdade, feridos de injustiça, arredados do acesso ao progresso, desmunidos do bem estar elementar.
Liberdade, justiça, progresso e bem-estar são os pilares da coesão nacional. Manter e reforçar a harmonia desses quatro pilares é também um objectivo permanente, actual e estruturante do futuro de Portugal.

Não me custa nada admitir que o leitor comente estas notas com um "muita parra e pouca uva". Tem razão. O presente discurso sobre Portugal é assumidamente gratuito e evoca sentimentos como os do amor, da amizade, da ternura, do dever, da dádiva - valores sem cotação entre os construtores racionais das grandes unidades dos cifrões. O cifrão é o símbolo do sucesso. Guia os passos do narcisismo reinante por entre os mármores dos balcões bancários, rua-sim-rua-sim do império urbano dos negócios.

Sendo estes os valores em alta, quem pára, pensa e investe a sua natureza afectiva, a sua natureza psicológica e a sua natureza antropossocial na defesa do sentimento, consciência e identidade nacionais, corre sérios riscos de cair num processo galopante de angústia.

O melhor antídoto contra estes riscos é conviver com velhas instituições, cujos projectos sociais de solidariedade hajam criado entre os seus destinatários um legítimo orgulho de pertença à instituição que os acolheu. Instituições assim revêem-se no escol que geram e desenvolvem uma comunidade histórica que aborda o futuro com garbo, porque há sempre no presente quem colectivamente assume as razões, os mitos e os sentimentos do passado.

A Casa Pia e os casapianos vivos e mortos proporcionam-nos esse modelo institucional onde é possível realimentar as baterias anímicas da identidade, consciência e sentimentos nacionais.

Os Cursos de Defesa Nacional de 1990 e 91, importa aqui lembrar, realizaram-se durante um período de turbilhonante processo de aceleração da história. Em tempo de crise, alargam-se os horizontes da incerteza e tornam-se estreitas as perspectivas de futuro que o passado e o presente nos sopram. Os auditores de defesa nacional de 90 e 91 fizeram uma pausa reconfortante na Casa Pia. Conviveram e ... viram.

E o que viram? Que é possível renovar, inovar e progredir continuando fiel à matriz essencial fundante do passado, o propósito de cortar pela raiz a origem de tantos males iminentes e evitar que tantos indivíduos ainda capazes de receberem uma boa educação e serem úteis ao Estado se precipitem em uma vida libertina e cheia de crimes, como escrevia Pina Manique no último quartel do século XVIII.

Que é possível revalorizar o passado, continuar as tradições e preservar o sentimento de pertença sem necessidade de meter o futuro entre parêntesis.

Que é compatível harmonizar o artesanato e a erudição, os cantares ligeiros e as grandes partituras, a plástica figurativa e a abstracta, fazer, criar, ver e usufruir os actos de criação.

Que é possível intercomunicar mão, cérebro e sentimento no processo educativo.

Que é possível responder com eficiência aos desafios de mão-de-obra qualificada, concluindo contratos entre a escola e a empresa, de forma a eliminar o hiato mutilante entre a conclusão da formação e a entrada no mundo do trabalho.

Que é viável a concretização de actividades circum-escolares, de convívio, festa, formação e reciclagem, investigação, estudo e publicação, envolvendo docentes, quadros técnicos e administrativos, pessoal auxiliar, convidados visitantes portugueses e estrangeiros, casapianos de todas as idades e valências técnico-culturais várias, isto é, a oferta de uma panóplia poli facetada de programas integrados que dão crédito à instituição, lhe reforçam a mística e prolongam o voo mítico do ganso que é seu símbolo.

Que é exequível a ordenação do espaço e dar aos ambientes de estudo, trabalho, recreio, convívio e lar tanto a dimensão da partilha como a da posse.

Que é possível pôr os métodos empresariais de gestão ao serviço dos altos ideais da solidariedade, sem ter que recorrer à deprimente dependência da esmola.

Pina Manique, o Intendente, foi um homem de sete ofícios, polivalente. Li de Adérito Tavares e José dos Santos Pinto a obra "Pina Manique – Um Homem Entre Duas Épocas", Casa Pia de Lisboa, 1990. Fixei uma curiosidade: em 1790 Pina Manique fez distribuir um folheto intitulado Método de restituir a vida às pessoas aparentemente mortas por afogamento ou sufocação.

Retomo hoje este título como uma metáfora para terminar estes apontamentos: quem se sentir sem pé neste mar agitado de um Portugal à procura de um projecto mobilizador da grei, e assim à deriva, sufocar de angústia, faça uma visita à Casa Pia de Lisboa. Voltará reanimado: ali preparam-se mulheres e homens que continuarão Portugal.

Fim

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