O Cabo Freitas
Publicado na revista Pela Lei e Pela Grei - revista da Guarda Nacional Republicana, nº4, Outubro - Dezembro, 1991
Num lado, ficava a taberna do Elias e no outro, a capela de Santo António. O sagrado e o profano convergiam fisicamente na encruzilhada da aldeia, como se casavam nas mentes de onde brotavam os gestos quotidianos de um trago de aguardente abençoado pelo sinal da cruz manhã bem cedo, a pausa das ave-marias ditas na boca do garrafão, a evocação do padroeiro por entre o corrupio dos copos e os murros na tampa da mesa que acentuavam, na sueca, o efeito das puxadas e respostas, outras tantas jaculatórias e palavrões, conforme os acertos e desacertos das jogadas.
Entrava-se para a taberna pelo lado da feira dos porcos e saía-se da capela directamente para a feira do gado. Santo António e Baco não se olhavam de frente, mas ambos vigiavam, na convergência dos dois adros, quem entrava e saía da aldeia. Ambos desfrutavam de um ponto ideal de observação: a estrada guiava os olhos para cima e a direito até se fixarem, na linha do horizonte, numa mancha verde-escuro, os loureiros, fronteira onde os vultos se desenhavam como amigos ou estranhos.
Quem vem lá?
A pergunta colava os olhos de quem ouvia na espessura dos loureiros. Contra o ecrã das árvores era difícil adivinhar quem vinha lá. Era preciso esperar que as figuras, na descida, se recortassem contra o nastro do caminho, para as identificar.
Então não se vê mesmo quem vem lá?!
Assim, com a mula a trote não é outro senão o mais novo dos Batoréus, o diacho ainda dá cabo da alimária; pelo chiar do carro era o ti Veríssimo com uma carrada de mato, vem sentado, encostado ao taipal das traseiras, que os bois vão a caminho da manjedoira; então vossemecê ainda não conhece o ladrar do cão do Cachareto, ah! bicho danado que não mais perdoou o primeiro pontapé do carteiro; é a ti Piedade do João das Abelhas, ligeira com o pote à cabeça, conseguiu vender o mel todo.
No alpendre da capela ou na loja do Elias, as sentinelas da aldeia, em rotação permanente, identificavam as silhuetas, interpretavam os movimentos, traduziam os sons. Radar humano espontâneo que vigiava para cá dos loureiros os ritmos da pertença ao chão do lugar.
Quem vem lá?!
Dois homens, vestidos de igual, um de cada lado da estrada. Os casacos pareciam não ter gola nem virados e ajustavam-se ao corpo abotoado do pescoço ao meio da coxa. Que trajo esquisito: o cinto das calças por cima do casaco? E que calças! Saíam direitas debaixo das abas cinzentas, o pano enfolava por altura dos joelhos e a partir daí desciam em funil, não se sabe se até ao fim da perna, porque a meio da canela, não havia dúvidas, começava a bota.
Dois melros novos nos loureiros! Melros?! Gatos. Cinzentos e bravos. Se calhar até se arranham um ao outro e é por isso que caminham afastados. E não têm pressa. Pudera! Nem os espera a terra, nem o que trazem a tiracolo é enxada, pá ou picareta.
O cabo e o soldado da Guarda Republicana - os melros em questão - cumpriam pela primeira vez uma missão de patrulha a partir de um posto novo inaugurado havia dois dias na vila. Apareciam do lado de lá dos loureiros e por conseguinte eram recebidos com desconfiança pelos do lado de cá.
A aldeia era pacata, mas senhora do seu nariz e opunha à bazófia dos funcionários e comerciantes da vila, sede de freguesia e concelho, burgo de escribas, registos, palácios, solares e fidalguias, a maior feira de gado das redondezas, nos dias quatro de cada mês, os folguedos de Santo António, dois casarões para baile, dois grupos de gaiteiros, mais o pífaro do Esquim Marques, o violão do Ti Pedro e o clarinete do Inocêncio.
E tudo isto há muito tempo e sem Guarda.
Para quê, agora, o cabo e o soldado estranhos à aldeia, orgulhosa da sua individualidade. Autoridade? Bastava a do Benjamin, o regedor.
A patrulha passou entre a taberna e a capela quase sem parar. Apenas o tempo para um - então, está tudo bem, não há problemas? - e para a resposta seca - a gente cá os resolve.
O Elias mentia por táctica. Não quis dar fé à Guarda do mistério da colher do pedreiro, instrumento com que um larápio nocturno desenterrava as primícias dos batatais: num ano foi meio batatal do Calhordas, noutro, uma veiga do João Tendeiro, uma semana atrás, o pobre do Becanca chorava meio alqueire de batatas que semeara para o ladrão e num acesso de raiva prometera uma sacholada na cabeça de todos os pedreiros que encontrasse de colher na mão.
O cabo piscou o olho ao soldado e continuou em direcção ao casal vizinho, um quilómetro depois do eucalipto grande. O Elias continuou a vender fiado até ao dia da jorna, mas enquanto dobrava o papel pardo e moldava com o punho da mão direita o interior do cone dos cartuchos da mercearia, ia perdendo a fé nos dotes do Benjamim, o regedor, para descobrir quem manejava a misteriosa colher de pedreiro.
Patrulha após patrulha, doze foram as feiras, dezenas os bailes, jogos da pela na Quaresma, a malha, o fito, as brincadeiras do rapazio senhores e donos dos terreiros entre duas feiras, enquanto os pais, nas várzeas, nos lameiros, nos brejos iam desfiando os trabalhos e os dias que a cidade conhece pelos almanaques.
E mais uma sementeira de batatas sem que o Benjamim pudesse prometer remédio para o escaravelho de colher de pedreiro.
E a patrulha passava fingindo acomodar-se à rotina da indiferença.
Um dia, nos primórdios do Verão, o cabo e o soldado saíram do posto, atravessaram o túnel de sombra dos loureiros e ergueram do outro lado os rostos ao céu para comungarem, olhos semicerrados e boca aberta, o sol quase a pino mas ameno. Quando voltaram a fitar a estrada, iniciaram a cadência de vigilância, um numa berma, outro noutra, ao mesmo tempo que saboreavam o prazer de acordar a vista aos cambiantes de verde dos milheirais. Levaram algum tempo para olhar na direcção da capela de Santo António e da taberna do Elias.
- O nosso cabo já reparou no ajuntamento à porta da taberna?
O graduado, ainda ávido dos campos verdes, comentou:
- Há por ali coisa! Olha, talvez desta vez precisem de nós?!...
Apressaram o passo.
- Então, algum sarilho por aqui?
O regedor falou pelos demais, disse que não havia sarilho, não senhor leu nas sombras rentes às raízes das árvores que se aproximava a hora da janta e de chofre pergunta:
- O Senhor cabo, afinal como é que se chama? E vossemecê aí - esticava o queixo para o soldado - como é a sua graça?
O cabo, apesar de surpreendido com a imediatez da pergunta, apreciou com agrado terem-no abordado a ele por senhor e ao soldado por vossemecê... Afinal, aquela gente sabia orientar-se pelo vértice das divisas... Por isso respondeu pelos dois:
- Eu chamo-me Freitas e aqui o soldado é Rodrigues.
- Pois meu caro Senhor Freitas, o Senhor e o seu colega terminam hoje por aqui o vosso trabalho.
- Não me digam que nos vão enforcar!...
Risada geral.
Havia surpresa. De certo, agradável: os guardas sentiam-se envolvidos numa intimidade franca. Mas havia igualmente um fundo cerimonioso, situado algures entre a cortesia, o embaraço, a festa, a solenidade, a reverência, o rito, o protocolo: não era a aldeia toda que estava ali, mas meia dúzia de homens bons representativos.
A surpresa fora montada na taberna do Elias: uma mesa farta, broa estaladiça a sair do forno, bom vinho à vista, directo da pipa para os pichéis, grandes travessas de bacalhau grosso, grelos verdinhos e... a cerimónia: um grande panelão de batatas novas cozidas com pele dourada que o Benjamim fez introduzir na mesa com solenidade: as batatas eram da última colheita e os da terra atribuíam à presença da Guarda Republicana o facto de naquele ano ter desaparecido o ladrão da colher de pedreiro.
Patrulhas e campos voltaram a obedecer ao ritmo do calendário aldeão. Mas agora, quando na encruzilhada da aldeia, alguém, mais curto de vista, pergunta, surpreendido por dois vultos cinzentos que assomam nos loureiros, um de cada lado da estrada, Quem vem lá, ouve sempre uma resposta tranquila:
- Vêm lá o Freitas e o Rodrigues.