O homem pensa e transmite
pensamentos. E é com pensamentos que os transmite. Já ninguém estranha esta
característica: é com naturalidade que entre nós dizemos “é” ou
“não é” ou “é e/ou não”. E é incluindo e excluindo pensamentos uns
nos outros que nós dizemos “sei” ou “não sei” ou “talvez saiba
se”.
Sempre que é emitido um pensamento quem o emite e quem o recebe refere-o
a um objecto transcendental, isto é, um objecto que se manifesta na mente
“como se existisse” (noção de transcendental), mas que de imediato nada
garante que possa mesmo existir fora da mente. Aliás, é a esta referência do
pensamento a um objecto transcendental que nós chamamos conceito.
Mas o objecto do conceito é tão
só “como se existisse” ou “existe mesmo”?
Responder a esta pergunta é
o problema essencial do conhecimento: a realidade reduz-se ou não se reduz ao
que dela pensamos? Um tal Sr.
Descartes, já lá vão mais de três séculos e meio, ensinou-nos a duvidar com
método e, eliminando dúvida após dúvida,
concluiu, sem dúvida
(!…), “penso, logo existo”. Mas há quem pense que Descartes se
precipitou. Deveria ter duvidado um pouco mais e concluir: “penso, logo
existem pensamentos”. Concluir “penso, logo existo como faculdade de
pensar” é, na expressão popular de hoje, “chover no molhado”.
Mas Descartes
precipitou-se… com emoção – na estratégia das decisões racionais, as emoções
também contam, revelou o português António Damásio – e como não duvidava
nem do seu corpo, nem do seu “cogito”, o primeiro comoventemente a ocupar
espaço desde o ventre da mãe e o segundo,
dinamicamente a estender o tempo da sua compreensão intelectual, entendeu dar razão ou fundamento explicativo do corpo e do
espírito, de cuja evidência lhe era impossível duvidar, propondo dois mínimos
separados um do outro, a “res
extensa” e a “res cogita” .
Erro de Descartes ou Desvio de Descartes?
O homem tem uma ânsia enorme
de explicar e de se explicar. Sempre o fez: o homem é um animal
“perguntador”. Todas as perguntas são válidas e indiferentes à verdade e
ao erro. Mas as respostas aferem-se em relação a um critério e em relação a
esse critério ou são verdadeiras ou são falsas. As respostas diferem entre
si, não pelo objecto (sempre o mesmo: as múltiplas perguntas sobre o mundo, o
universo e a vida), mas pelo fundamento da explicação: a experiência empírica
explica, os mitos explicam, as religiões explicam, as ciências explicam, a
filosofia explica – em todo o tempo e ao mesmo tempo ad eternum.
A fundamentação da resposta
é que varia: as repetidas experiências vividas do quotidiano, as narrações míticas
repetidas de geração em geração, os apoios cegos e/ou críticos das crenças
aceites como reveladas ou não, as hipóteses racionais confirmadas ou
desmentidas pelas experiências particulares controladas e verificáveis, as sínteses
racionais e gerais e totalizantes da arquitectónica do pensamento.
A história da cultura é no
fundo a história destas respostas e não é difícil encontrar pontos de secância
entre as várias explicações, assistindo-se até na contemporaneidade ao
aparecimento de sincretismos explicativos que renovam e valorizam os contributos
de saberes ancestrais, reafirmando a necessidade de uma “meta ciência” que
assuma uma atitude crítica do
pensar em face do conjunto do saber.
O termo filosofia
banalizou-se: chegou ao futebol (a filosofia do jogo…), chegou aos bares (o
gajo com uns copos é um filósofo…), e tem cotação na bolsa (a filosofia
das empresas…). Tudo bem: não faltam os debates de ideias. Mas uma coisa é a
"ideosofia" e outra a filosofia. Filosofar, aqui e agora, pode
dispensar a explicitação expressa de referir permanentemente a adequação dos
conceitos aos objectos concebidos, mas não dispensa uma tomada de posição
metodológica sobre o mínimo de pressupostos subjacentes ao máximo de explicações
que a arquitectónica do pensamento entende alcançar com coerência dentro de
um processo de fundamentação racional dos juízos.
É velha a querela do
estatuto lógico da singularidade. O que é a singularidade? Não se define,
descreve-se. É irrepetível: é capaz de haver neste momento milhares de
pessoas que, como eu, escrevem com processadores de texto instalados em
computadores: cada processador, cada computador, cada tecla, cada dedo, cada
gesto, cada emoção, cada frenesim do espírito, cada pessoa, cada história a
sua história – a singularidade é no mundo da ideosfera um conjunto
transfinito de notas caracterizadoras, cuja dialéctica impõe à razão a
objectiva transcendência do real.
Sou dos que pensam que só as
singularidades são reais e que a realidade é indivisa e discreta, distinta,
independente, separada. Transcende, portanto, o pensamento, quer dizer,
é mais do que aquilo que eu penso dela. Aliás, quem duvida que o mundo,
o universo e a vida já cá estavam antes de haver o homem racional? É a analítica
e a dialéctica dos pensamentos pensados pelo pensar independentemente do
sujeito que os pensa e dos objectos a que se reportam, (Lógica),
a disciplina fundante da arquitectónica do saber.
Se a filosofia não servir
para arquitectar um sistema encadeado de razões que permita ao
homem abordar as perguntas radicais que formula – o que é o conhecimento
(Gnosiologia), que “coisa” é essa que ele diz conhecer (Ontologia), quem é
ele, o homem, esse tantas vezes desconhecido de si mesmo que afirma conhecer
(Psicologia, disciplina filosófica ), que esfera objectiva de valores prossegue e propõe (Axiologia), que quadro de comportamentos prescreve e aceita para conviver em
sociedade (Ética), enfim, que "eus" são esses que se desamarram do
cérebro e como se arrumam na memória colectiva da esperança (Estética) – se não servir para
justificar a fé, racionalizar a crença, reajustar a tolerância
convivencional, e apoiar a fruição do belo, então a filosofia não passará de uma esgrima entre suspeições
de cépticos e a vida uma nauseabunda manipulação dos saberes e dos poderes
impostos.
O realista sabe que a realidade transcende o
pensamento e, consequentemente, não ignora que há e haverá sempre o
desconhecido a “pedir” ao pensamento que o desvenda. Mas não embarca no
cepticismo metódico dos idealistas: aborda o mistério
de hoje com o saber crítico de ontem. Se alguma ideia há de progresso em
filosofia, ela tem a ver com as sucessivas integrações e superações dos
conhecimentos e não me parece avisado dizer, por exemplo, que o pensamento de
Kant seja melhor que o de Aristóteles. E muito menos avisado me parece dizer
que um esteja mais próximo da verdade que o outro: apenas o mais recente
integra e supera as aporias do mais antigo. Importa saber se as supera e integra
com coerência sistemática.
Considero-me um realista no
exacto sentido atrás exposto. Mas há quem pense o contrário: os idealistas
reduzem a realidade ao que dela se
pensa… Os realistas são transcendentalistas, os idealistas são imanentistas.
Eu sou transcendentalista. E também não confundo realista com materialista,
nem idealista com espiritualista. O materialismo
e o espiritualismo respondem a outro problema do acto de conhecer, qual
seja o de saber a natureza do objecto conhecido: material ou espiritual?
Nunca antecipei Deus para
entender o mundo e a vida, mas pensamento,
mundo e vida conduziram-me à porta do mistério. Lá porque a razão o não
domina, não tem razão em eliminá-lo. Os imanentistas, liberta a razão de ter
de se confrontar com o real que a transcende, elegem geralmente um qualquer saber
particular e arvoram-no em disciplina fundamental da sua particular sistemática
filosófica. Há mesmo “modas”
nisto das explicações. E há a ditadura das ideias na moda…
A vida tem prioridade sobre o
pensamento. É o bom senso que o diz, a fenomenologia que o relata e a razão
que o sanciona. A razão é para pensar a vida, mas não foi a razão que ma
deu. Diz-me a razão que a morte não afecta a vida. A vida continua e já cá
andava quando chegou ao meu conhecimento. Os outros não são o mesmo que eu,
mas eu deles e eles de mim, todos esperamos a dádiva da justiça. E descobrimos
entre nós a necessidade do amor, o usufruto da criação sem lei. E é porque não
amamos que penosamente nos agarramos às virtudes e procuramos na história a
objectivação dos valores. O homem não é a medida de todas as coisas: - não
é de certeza a medida das coisas que já existiam antes dele.
Estas ideias consolam-me o
espírito, mas não evitam a inquietação do viver. Descobri que cheguei
perfeitamente ao entendimento do bem que devo fazer e à verificação de fazer
o mal que não queria. E vejo que isso sucede com os demais. Evito, no entanto,
ser manipulador de culpas. Defendo-me de quem queira manipular as minhas.
É nesta dialéctica comportamental que eu insiro o perdão: perdoar pressupõe
a coragem de não alterar as circunstâncias que levou o outro a ofender sem
querer – consiste tão só em libertá-lo da culpa. Libertai-me da minha se
vos ofendo.
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